Nova encíclica “No dia 25 de Janeiro, será finalmente publicada a minha primeira Encíclica, cujo título é já conhecido, “Deus caritas est”, “Deus é amor”. O tema não é imediatamente ecuménico, mas o quadro e o fundo são ecuménicos, porque Deus e o nosso amor são a condição para a unidade dos cristãos. São a condição da paz no mundo.
Nesta Encíclica, gostaria de mostrar o conceito do amor nas suas diversas dimensões. Hoje, na terminologia que se conhece, ‘amor’ aparece, muitas vezes, longe daquilo que pensa um cristão quando se fala de caridade.
Pela minha parte, quero mostrar que se trata de um único movimento com diversas dimensões. O ‘eros’, este dom do amor entre homem e mulher, vem da própria fonte de bondade do Criador, bem como a possibilidade de um amor que renuncia a si mesmo em favor do outro.
O ‘eros’ transforma-se em ‘agape’ na medida em que os dois se amam realmente e um já não se busca a si mesmo, sua alegria, seu prazer, mas procura sobretudo o bem do outro. Assim, isto, que é ‘eros’, transforma-se em caridade, num caminho de purificação, de aprofundamento. Da própria família parte-se para a família maior da sociedade, para a família da Igreja, para a família do mundo.
Procuro ainda demonstrar como o acto personalíssimo que vem de Deus é um único acto de amor. Isso deve também exprimir-se como acto eclesial, organizativo.
Se é realmente verdade que a Igreja é expressão do amor de Deus, daquele amor que Deus tem pela sua criatura humana, deve ser também verdade que o acto fundamental da fé, que cria e une a Igreja e nos dá esperança na vida eterna e na presença de Deus no mundo, gera um acto eclesial. Na prática, a Igreja, também enquanto Igreja, enquanto comunidade, de modo institucional, deve amar.
E esta chamada “Caritas” não é uma pura organização, como outras organizações filantrópicas, mas necessária expressão do acto mais profundo do amor pessoal com o qual Deus nos criou, suscitando no nosso coração a tendência para o amor, reflexo do Deus Amor que nos transforma em sua imagem.
Até que o texto estivesse pronto e traduzido foi necessário algum tempo. Por isso, parece-me um dom da Providência o facto de que, exactamente no dia em que rezaremos pela unidade dos cristãos, o texto seja publicado. Espero que possa iluminar e ajudar a nossa vida cristã”.
Bento XVI, na audiência geral de 18 de Janeiro
Texto original publicado pela Santa Sé e tradução da agência Ecclesia
O que é uma Encíclica?
Carta solene do Papa (da palavra grega “circular”), normalmente dirigida aos membros da hierarquia, aos fiéis e, por vezes, também aos homens de boa vontade. É o grau máximo dos documentos que o Papa escreve. As encíclicas tornaram-se comuns a partir de Leão XIII. Aquela que geralmente se considera a primeira foi escrita por Bento XIV (1740). João Paulo II escreveu 14. Paulo Vi escreveu sete encíclicas.
Significado da primeira do pontificado
“A encíclica é uma carta com um âmbito universal, onde o Papa empenha a sua autoridade como sucessor de Pedro e primeiro responsável pela Igreja Católica. (…) Ao longo do século XX foi-se tornando habitual que os papas publiquem, no início do seu pontificado, uma carta encíclica sobre o cargo que assumem; às vezes, são de carácter doutrinal, mas ultimamente tem sido regular que tenham uma parte programática”, afirma Pe Peter Stilwell, director da faculdade de Teologia da UCP.
Paulo VI e João Paulo II
“Ecclesiam Suam” (6 de Agosto de 1964) foi a primeira encíclica de Paulo VI. Nela, Paulo VI elegeu como temática a questão do diálogo e explicita quem são os interlocutores do diálogo em termos de Igreja.
Em “Redemptor Hominis” (4 de Março de 1979), João Paulo II escreve aquela frase que talvez defina melhor o seu pontificado: “Não tenhais medo”.
Encíclica ecuménica
“Todo o mundo espera esta encíclica, nomeadamente os nossos amigos ortodoxos e protestantes. (…) O tema é a caridade, fundamental para o ecumenismo, porque a plena comunhão implica também o amor pleno”.
Cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
Encíclicas de João Paulo II
João Paulo II escreveu 14 encíclicas, a que Bento XVI já se referiu como “interpretação autêntica do Concílio”, mais do que as 7 de Paulo VI e as 8 de João XXII, mas bem menos do que as 41 de Pio XII (1939-1958) e as 86 de Leão XIII (1878-1903). Aqui ficam os nomes em latim das encíclicas do Papa polaco e a primeira afirmação (resumo) de cada uma.
Redemptor Hominis (04 -03-79). O Redentor do homem, Jesus Cristo, é o centro do cosmos e da história.
Dives in Misericordia (30-11-80) «Deus, rico em misericórdia», é Aquele que Jesus Cristo nos revelou como Pai e que Ele, seu próprio Filho, nos manifestou e deu a conhecer em Si mesmo.
Laborem Exercens (14-09-81) É mediante o trabalho que o homem deve procurar o pão quotidiano e contribuir para o progresso contínuo das ciências e da técnica, e sobretudo para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os próprios irmãos.
Slavorum Apostoli (02-06-85). Os apóstolos dos eslavos, santos Cirilo e Metódio, permanecem na memória da Igreja a par com a grande obra de evangelização que realizaram.
Dominum et Vivificantem (18-05-86). A Igreja professa a sua fé no Espírito Santo, como n’Aquele «que é Senhor e dá a vida».
Redemptoris Mater (25-03-87) A Mãe do Redentor tem um lugar bem preciso no plano da salvação, porque, “ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido duma mulher (…)”.
Sollicitudo Rei Socialis (30-12-87) A solicitude social da Igreja, que tem como fim um desenvolvimento autêntico do homem e da sociedade, o qual respeite e promova a pessoa humana em todas as suas dimensões, manifestou-se sempre das mais diversas maneiras.
Redemptoris Missio (07-12-90) A missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, está ainda bem longe do seu pleno cumprimento.
Centesimus Annus (01-05-91). O centenário da promulgação da Encíclica do meu predecessor Leão XIII de veneranda memória, que inicia com as palavras Rerum novarum, assinala uma data de importância relevante na história presente da Igreja e também no meu pontificado.
Veritatis Splendor (06-08-93). O esplendor da verdade brilha em todas as obras do Criador, particularmente no homem criado à imagem e semelhança de Deus
Evangelium Vitae (25-03-95). O Evangelho da vida está no centro da mensagem de Jesus.
Ut Unum Sint (25-05-95). Ut unum sint! O apelo à unidade dos cristãos, que o Concílio Ecuménico Vaticano II repropôs com tão ardoroso empenho, ressoa com vigor cada vez maior no coração dos crentes.
Fides et Ratio (14-09-98). A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.
Ecclesia de Eucharistia (17-04-03). A Igreja vive da Eucaristia.
