A árvore de Zaqueu*
* «Porque era de baixa estatura, subiu a uma árvore para ver Jesus» (Lucas 19,3-4)
Se treparmos até ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor. 1.º DOMINGO DA QUARESMA – Ano C
Tinham sido um povo numeroso e bem considerado no Egipto, para onde haviam começado a migrar, por volta de 1700 a.C. Mas cedo descobriram, os descendentes de Abraão, que o paraíso de Adão e Eva foi efectivamente eliminado do cenário humano. De facto, não podemos confiar que sociedade alguma ponha o céu ao nosso alcance: cada um de nós é que é o único construtor dos alicerces de um céu «fora do alcance da ferrugem e dos ladrões» (Lucas 12,33).
Quantas vezes o Antigo Testamento aponta o dedo contra a imprudente confiança do «povo escolhido» na presumida aliança com nações poderosas! Os poderosos, infelizmente, sucumbem facilmente à tentação de só quererem quem lhes preste um tributo cada vez mais pesado e frequentemente aviltante.
Foram precisos 400 anos de muitos e repetidos desenganos (pois até nos habituamos a uma situação de “infelizes”…) para que os Israelitas se unissem eficazmente contra a opressão e largassem o Egipto. O seu líder era Moisés e o caminho conveniente era o deserto. Longe da riqueza do Egipto, Israelitas e Deus pareciam seguir o provérbio: «antes só que mal acompanhado».
Quanta gente não sente o desejo de conhecer o deserto? E não só como experiência radical. É o lugar sonhado de plena libertação: de burocracias, guerras de poder, slogans de toda a ordem; dos horários para comer, para dormir, para trabalhar, para descansar… É a imaginação pura sobre lagos e tempestades de areia, sobre impressionantes rochedos áridos, sobre venenos escondidos, sobre “moiras de encantar”… é a imaginação livre para criar miragens e falar com elas e perder-se nelas.
O deserto é a situação por excelência em que a pessoa se encontra só consigo e onde a fraqueza humana se transforma no desejo da solidez total. Os célebres «padres do deserto», e grandes figuras ao longo dos séculos, procuraram o deserto para aí poderem avaliar a autenticidade da sua força interior.
O livro do Deuteronómio (palavra que significa «segunda lei», referindo-se à renovação da espiritualidade do «povo de Deus») estabelece que ao longo do ano haja dias de festa para lembrar a fidelidade do Deus libertador e fortificar a identidade histórica e cultural, contando-se às novas gerações as experiências radicais – desde uma «luta com Deus» (Génesis 32,23-33), até ser namorado por Deus durante «quarenta anos» de deserto, cheios de promessas, desquites, ameaças e perdões.
«Hei-de castigá-la (à «filha de Sião», a nação eleita) por correr atrás dos seus amantes e me esquecer. É por isso que a vou seduzir, levando-a para o deserto e falando-lhe ao coração. E ela se encantará comigo como nos tempos da sua juventude, e me chamará “meu marido”» (Oseias 2, 15-18).
Jesus Cristo veio-nos lembrar da necessidade deste namoro com Deus. No deserto, enfrentando todos os ventos. S. Lucas sublinha como Jesus teve que superar as normalíssimas ambições humanas de prazer, glória, riqueza e poder. Ganhou assim credibilidade: deu prova do realismo e prudência que devem acompanhar os mais incansáveis ideais; e forjou com segurança um projecto suficientemente sólido para vencer as investidas do comodismo.
O Êxodo é uma narrativa em que não se descrevem factos com exactidão, mas que nos faz compreender o que é uma “joint-venture” do Homem com Deus.
Mas… será que Deus é boa companhia?
A imagem de um Deus controlador e até castrador é própria daqueles que não compreendem o que levou Jesus a resistir à tentação de sucesso imediato. Quando é mesmo Deus que nos acompanha, o saldo é a descoberta da força de cada um de nós – «criados à imagem do próprio Deus» (Génesis 1,27). Sentimos Deus quando ele nos abre os olhos – para nós próprios e para a vida.
Para os Israelitas, o Êxodo era impensável. E mesmo quando começou a caminhada, parecia impossível o sucesso. A «ressurreição» é impensável e o sucesso não é visível. Mas por que é que a Humanidade, como no Êxodo, não desiste de viver sempre mais?
Manuel Alte da Veiga
