Cristãos no mundo do trabalho (II)

Revisitar o Sínodo Diocesano É muito comum, nos nossos dias, encontrarmos quem queira ver a Igreja remetida à sacristia, quem deseje “encurralar” os cristãos num intimismo “pacifista”, em suma: quem deseje tornar a fé cristã insignificante, reduzir a Igreja a uma “devoção”.

“Vós sois o sal da Terra; vós sois a luz do Mundo!” – São palavras de Jesus, de modo algum inócuas ou pietistas. A presença dos cristãos na vida social, na vida laboral, não pode ser neutra de forma nenhuma. A sua maneira de viver – igual à de qualquer cidadão – tem de se reconhecer, todavia, pelos valores que a enformam, com reflexo evidente na sua relação com os demais e com as realidades em que se move.

Daí que o Sínodo Diocesano, para além de sugerir uma compreensão cristã humanista do trabalho e da economia, proponha caminhos que desenvolvam um clima de responsabilidade comum face à problemática do mundo do trabalho.

Promova a Igreja Diocesana, por meio das suas instituições, o diálogo e a colaboração entre os cristãos, situados nas diferentes áreas do mundo laboral, e também entre as associações e movimentos que se reclamam de inspiração cristã e que actuam nesta área.

Proponha-se a solidariedade como primeiro critério das decisões e como caminho para encontrar soluções e corrigir abusos de uma economia desvinculada da ética humanista e cristã.

Sejam os empresários cristãos incentivados a investir e a criar postos de trabalho, pondo os seus bens ao serviço do Bem Comum e exprimindo, deste modo, o carácter social do capital acumulado. Apoiem-se e louvem-se também todos aqueles que já o fazem e que, na gestão da empresa e no respeito pelos direitos dos trabalhadores e da sua qualidade de vida, procuram agir segundo a Doutrina Social da Igreja.

Tudo isto reclama uma consciência interna, individual e de grupos ou movimentos, da missão que cabe à Igreja de ser portadora de uma Boa Nova para o mundo do trabalho. Boa Nova que é essencialmente o reconhecimento do próprio trabalho como um modo de realização pessoal e um contributo para a harmonia social; afirmação consistente da fraternidade humana, que deve tornar solidária toda a forma de relações, incluindo as laborais; utilização dos bens, mesmo que de propriedade privada, em benefício de todos.

Não está vedada a iniciativa privada. Pelo contrário, a riqueza da diversidade de talentos e de capacidade de iniciativa será um bem. É preciso é que os princípios éticos que regulem toda a actividade, do capital e do trabalho, radiquem na dignidade da pessoa humana e no seu carácter de ser-em-relação.

Querubim Silva