“Somos obra inacabada”. “Estamos marcados pelo pecado”. “Precisamos de conversão” — ideias fortes na celebração de Quarta-feira de Cinzas.
D. António Marcelino centrou a homilia da Celebração de Cinzas, na noite do dia 1 de Março, na Sé de Aveiro, na necessidade de conversão individual nesta Quaresma. “Somos obra inacabada. O projecto de Deus foi adulterado pelo pecado dos nossos pais e pelo nosso. Por isso, o convite da Igreja para que nos apercebamos da loucura de Deus, que entrega o seu próprio Filho”, disse D. António.
O Bispo de Aveiro lembrou alguns convites bíblicos à conversão, para sublinhar um sentido de conversão como “acesso à grandeza de Deus”. O profeta Joel – como se ouviu na primeira leitura da celebração – apelou a que “voltassem à Aliança e se reencontrassem com o absoluto de Deus”. “‘Converte-te’ foi o apelo de João Baptista. E foi igualmente a palavra de Jesus no início da vida pública”, porque “ser mais do Reino é igual a ser mais de Deus”, disse o Bispo de Aveiro, recordando ainda que a Igreja, no início de cada celebração eucarística, convida à conversão no acto penitencial.
A conversão é “acesso à grandeza de Deus”. É “vocação a ser como Deus, não a pormo-nos no lugar dele, mas a viver da sua grandeza”. E, para viver da grandeza de Deus, é necessário reconhecer a sua própria dependência, a sua condição de criatura, a sua necessidade de Deus. “Somos pó dignificado”, disse, antes de impor as cinzas que lembram a condição frágil de todos os seres humanos. Atitude contrária é a daqueles que “pensam que não precisam de ninguém”, devido à sua “saúde, juventude, prestígio ou dinheiro”. Ora, “estamos sempre a necessitar dos outros e da mão generosa de Deus posta no nosso caminho”, reconheceu D. António.
Reafirmando o esforço individual de conversão, o pastor da diocese lembrou que “a palavra ‘converte-te’ é mesmo para ti, para mim; nunca se diz: ‘converte os outros’”.
Num tempo em que “a Quaresma já não é ajudada socialmente”, o Bispo de Aveiro sugeriu que cada um crie os seus próprios ambientes de conversão, dando espaço a três grandes “ajudas”, a Palavra, a Oração e a Partilha/Caridade com os necessitados, e sublinhou o apelo à reconciliação “pela mediação da Igreja”, isto é, pela confissão sacramental, como já havia escrito na Mensagem Quaresmal (ver Correio do Vouga de 1 de Março).
“A mãe teimosa diz-nos: ‘Convertei-vos’”
D. António Marcelino presidiu na Sé à Eucaristia do I Domingo da Quaresma e voltou a centrar as suas palavras na necessidade de uma conversão que passe pelo reconhecimento do pecado. Enquanto a sociedade nega a existência do pecado, a Igreja, uma “mãe teimosa”, “diz ‘convertei-vos’, porque não fazemos tudo bem, fazemos o mal, e fazemos o bem mal feito”, disse o Bispo de Aveiro. É a teimosia de quem ama.
Várias vezes D. António referiu a oposição Igreja/sociedade quanto ao pecado: “A sociedade diz: ‘Liberta-te; anda para fora!’; A Igreja diz: ‘Converte-te; olha para dentro’”. A negação do pecado por parte do homem moderno foi comparada a “uma casa suja, desarrumada, com lixo, mas em que não há luz”. Logo, não há conhecimento da sujidade. “A vida de muita gente é assim. O que diz que não tem pecados é mentiroso. A consciência do pecado é a consciência da verdade”, afirmou o Bispo de Aveiro.
Na celebração do dia 5 de Março foram nomeados 83 ministros extraordinários da comunhão, provenientes de todos os arciprestados da diocese, e foi instituído leitor o seminarista maior Filipe José Monteiro da Cunha Coutinho, da paróquia da Cacia.
