Pobreza à nossa porta

Descoberta em tempo de Natal O grupo de Catequese do 12º ano da paróquia da Vera Cruz, fez uma descoberta, no último Natal, que nega a ideia de que não há pobreza e obriga a pensar na maneira de ser verdadeiramente cristão. Bem perto, há pessoas que vivem em condições desumanas.

Não foi em África, na América ou na Ásia. Não foi num país de Leste, numa longínqua China ou num dos bairros problemáticos da Grande Lisboa. Foi em Aveiro, bem no centro, numa das mais agradáveis e históricas partes da cidade. Foi lá que encontrámos a mais profunda misé-ria e desolação.

Era Natal. Aquela altura do ano em que, por uma vez, nos lembramos que não vivemos sozinhos; em que partilhamos este mesmo mundo com pessoas que vivem com dificuldades, infelizes, sem dinheiro e sem fé. Não sabemos se é o nascimento de Jesus, tão pobre, tão frágil, tão nu, que nos impele a lembrar de quem sofre. Mas, se é assim, porque é que só o fazemos em meados de Dezembro? Não deveria aquele Menino tocar-nos todos os dias?

Abstraídos do corrupio das compras, das filas, das multidões nas lojas, todos nos concentrámos num único propósito: levar a uma família um pouco mais do verdadeiro Natal. Não sabíamos quem e o que iríamos visitar. Não sabíamos até que ponto ia a sua pobreza. E foi assim, de cabaz em punho, que saímos do nosso mundo para entrarmos no deles.

Pelos caminhos da nossa cidade, íamos dissertando sobre aquilo que esperávamos encontrar. Encontrá-mos uma família que vivia parada no tempo. Ali não tinha chegado o Portugal do século XXI, com habitações luxuosas, estádios de futebol e parques de lazer. Ali só se via um projecto inacabado de um lar. Via-se lixo, moscas, mas sobretudo, desânimo e desespero. Era gente que precisava de mais do que de um simples cabaz. Precisavam de uma casa que substituísse aquele aglomerado de contraplacado e cartão e de algo que lhes devolvesse a vontade de viver. Viviam em condições deploráveis, numa barraca feita de alcatifas podres, onde acolhiam quatro pessoas, duas delas doentes. Foram cheiros, sons e imagens que nos impregnaram de um desconforto atroz, de uma sensação de culpa e remorso e que nos fizeram voltar a questionar se estaríamos em Aveiro ou se alguém nos tinha transportado para uma realidade de “Terceiro Mundo”.

Perguntávamos-nos como seria possível nunca ninguém ter feito nada para ajudar a mudar a situação daquela família. Como é que nunca se lhes proprocionou uma casa digna, numa cidade de tanto prédio? Como é que cada um de nós pode viver, tendo a percepção de que há gente que passa por verdadeiras privações? Como é possível?

O nosso objectivo, conjuntamente com a boa vontade dos Vicentinos, era oferecer um modesto cabaz para o Natal. No entanto, perante o que observámos, a nossa simples oferenda não saciaria as grandes necessidades existentes. De acordo com as informações cedidas pelos Voluntários do serviço prestado pelos Vicentinos, esta situação de miséria extrema foi levada já ao conhecimento das autarquias locais, nomeadamente Junta de Freguesia e Presidência de Câmara, e também aos políticos em momentos de campanha eleitoral. Contudo, a situação mantém-se, há quase três décadas. Afinal, de “Moles” esta família só tem o nome, porque, na nossa opinião, eles são muito fortes, para resistirem ao seu drama arrastado. Esta realidade contradiz as estatísticas publicadas há algum tempo, por um departamento da Universidade de Aveiro, onde se afirma não existirem barracas nem pobreza extrema na nossa freguesia da Vera Cruz. Esta miséria globalizada e tridimensionada (ma-terial, ético-moral e social), já para não falar da dimensão espiritual, não teve ainda resposta, nem para o problema, nem tão pouco, o “resgate”, a promoção das pessoas, que se alimentam de uma caridade fútil e estéril.

Enfim, mais do que naquelas pessoas, a verdadeira metamorfose deu-se em nós. De uma maneira terrível, descobrimos o quão ingratos somos por tudo aquilo que Deus nos dá. Descobrimos que talvez Aquele Menino pobre e débil não se sinta bem no meio dos luxos e das nossas extravagâncias, da comodidade que enche o nosso coração, não deixando espaço para Ele nascer e crescer.

De facto, o Natal do grupo do 12º ano de catequese foi diferente este ano. Foi o Natal junto dos pobres. O verdadeiro Natal!

Pena foi que o tivéssemos descoberto de forma tão crua e angustiante. Mas ninguém disse que seria fácil a tarefa. Contudo, talvez seja essa a beleza de se ser Cristão…!

O Grupo de Catequese do 12º ano