Trabalho de sapa!

Foi uma expressão que me habituei a ouvir desde miúdo. Sobretudo na Acção Católica – desde a infância que tive a felicidade de andar por esses meandros! -, era uma expressão habitual, para dizer que a transformação das mentalidades, a verdadeira revolução das consciências, a mudança da opinião pública, a construção de perspectivas sociais novas… tudo se alcançaria lenta e serenamente, por um empenho persistente e discreto, mas sempre personalizado e objectivo. Hoje diríamos, em termos piscatórios, trabalho de “pesca à linha”.

Claro que os meios de comunicação social vieram relativizar estas expressões. Tornou-se fácil manipular as consciências, fazer lavagens ao cérebro, forjar modelos culturais, aliciar com praxes sociais, desestruturar personalidades… Alguns dirão que os media vieram não apenas relativizar, mas varrer por completo qualquer espécie de conversão pessoal, qualquer hipótese de construção sólida de moral autónoma, de verdadeira liberdade, de responsabilidade assumida.

Apesar de tanto desnorte, não partilho desta opinião pessimista. Sinto que a desagregação está a bater no fundo, que a perplexidade e insegurança das pessoas atingiu o auge, que os becos sem saída para as estratégias políticas e sociais se multiplicam, que a educação se desdobra em inúteis reformas… E as pessoas continuam em desenfreada busca de identidade! Os grupos e nações anseiam por um concerto de parcerias que reconheça as diferenças e as conjugue em cooperação estável!

E animo-me com a proliferação de pessoas e grupos que retomam a estratégia da “pesca à linha”, do “trabalho de sapa”. Isto é: multiplicam-se as iniciativas de acolhimento-atendimento personalizado, de encontro de identidades, de construção de pessoas vertebradas por convicções sólidas… E tudo isto sem plateias histéricas e alienadas, sem reportagens provocantes, sem “eventos” intencionais e rituais esotéricos.

A lógica de Jesus Cristo foi a atenção e o chamamento pessoal, foi o diálogo personalizado e persistente, foi o cuidado com a identidade de cada um e a resposta às questões ou situações pessoais… E não deixou, por isso, de provocar uma “revolução” que ninguém mais conterá. Apesar de muitos considerarem que estão em vias de a conter e neutralizar, enganam-se redondamente. Porque o que passa assim, serenamente, pelo coração da pessoa humana, não para de se transmitir e ninguém conseguirá conter!