Dinamismo da Compaixão de Deus

Catequeses Quaresmais Palavra deturpada

“É necessário descodificar a palavra compaixão. Purificar o sentido que tem”. Este foi um primeiro alerta da segunda catequese quaresmal do Bispo de Aveiro. Em foco estariam dois textos da compaixão de Jesus (Mt 9,35-38: A compaixão de Jesus pela multidão “cansada e abatida, como ovelhas sem pastor”; e Mc 6,34-44: Jesus alimenta 5000 pessoas com cinco pães de dois peixes). Compaixão não é dó ou pena, mas “sintonia com o outro no seu sofrimento; é oferecer o ombro para encosto; é estar presente; a compaixão constitui ajuda”.

A compaixão é dinâmica

“Quem tem compaixão mostra a compaixão naquilo que pode fazer”. “Ela move a agir, a não ficar na verificação da dor e da carência, a ser resposta verdadeira, inovadora e criativa. A compaixão nunca humilhar, antes engrandece. Leva a repartir o que se recebeu e a cultivar, sempre mais, um coração compassivo, que é expressão de riqueza”.

“Coração compassivo é aquele que sintoniza com o outro, na dor e nas dificuldades, e logo se abre à partilha, à ajuda, à atitude de samaritano disponível, de generoso cireneu. Como o fez sempre Jesus Cristo, Ele que «passou fazendo o bem».

Uma certeza

“O sentimento de abandono e de solidão estéril é apenas nosso, porque o Senhor nunca abandona a obra das suas mãos. Esta certeza, feita experiência pessoal, é fundamental ao nosso itinerário espiritual, na nossa resposta ao chamamento que nos acompanha, ao grito incontido do encontro desejado com a origem da vida e a fonte do bem”.

“A Bíblia está cheia desta presença de Deus, tornada visível em Jesus cristo, sempre traduzida em gestos eficazes de amor: multidões que experimentaram ao vivo o seu poder, gente anónima que beneficiou do perdão e da cura, lágrimas enxugadas pelo seu carinho e compreensão, vidas reencontradas porque com Ele se encontraram… E esta ternura de Deus, força redentora para todos, continua na Igreja na vida de tanta gente, humilde ou discreta, sempre a manifestar uma presença que exorciza todos os medos e se torna força determinante dos fracos e esperança dos pecadores contritos”.

Nós matamos gente

D. António contou um caso real sobre a falta que compaixão, que assume as vestes da indiferença e mina as comunidades cristãs. Quando era bispo auxiliar em Lisboa e andava em visita pastoral, entra na casa de uma idosa, que lhe diz: “Veio visitar-me?! Eu já morri”. Há muito que a senhora estava abandonada. Nesse mesmo dia, na celebração da Eucaristia dessa comunidade conhecida pela sua forte prática religiosa, D. António tem palavras duras: “Nós matamos gente!” No final, muitas pessoas vão à sacristia perguntar o que podem fazer. Uma delas diz: “Eu pensava que essa senhora já tinha morrido”, mostrando como a indiferença, o desconhecimento e a falta de compaixão caminham juntos.

D. António não disse como foi resolvida a situação da senhora, mas deu para perceber que a falta de compaixão mata e concluiu o relato do caso com a frase seguinte, que tem dois sentidos: “O coração compassivo é o que ressuscita”. O coração compassivo tira os outros da morte. O coração compassivo não é detido pela morte.