“A indignação é um direito mas não justifica a violência”

Entrevista a Rachid Ismael, director do Colégio Islâmico de Palmela, a propósito das caricaturas do Profeta Maomé A religião islâmica está no centro das atenções por vários motivos, nem sempre os melhores. Porque não há paz no mundo sem paz entre as religiões e, para isso, o primeiro passo é o conhecimento mútuo, o Correio do Vouga entrevistou Rachid Ismael. O imã muçulmano e líder da comunidade islâmica de Palmela esteve em Sever do Vouga, onde participou num debate na Escola Secundária, no âmbito das aulas de EMRC.

Rachid Ismael é director do Colégio Islâmico de Palmela, escola onde se ensina o currículo normal do 1º ao 3º ciclo. Paralelamente, os alunos têm aulas de religião muçulmana duas horas por dia. Entre os alunos há dez que não são muçulmanos. Desses dez, cinco frequentam as aulas de religião muçulmana.

Na margem Sul do Tejo, zona de influência da Mesquita de Palmela, há cerca de 10 mil muçulmanos. Em Portugal, no total, há 40 mil seguidores do profeta Maomé.

É fácil ser muçulmano num país de maioria católica?

A religião islâmica é uma religião universal, aberta. Cada dia que passa, torna-se mais importante estar aberta. Qualquer pessoa pode estudar, pesquisar e depois fica ao seu critério aderir ou não. Podemos ser muçulmanos em qualquer local. Em Portugal, não temos tido problemas de maior. A comunidade muçulmana veio maioritariamente das ex-colónias e está bem integrada. Na sua maioria são comerciantes. Os jovens de segunda e terceira geração são licenciados. Antigamente havia a tradição de o pai ter uma loja e o filho continuar essa loja. Agora os filhos aderem a carreiras profissionais.

A comunidade está bem integrada?

Sim, em Portugal temos uma convivência pacífica. É um exemplo de multiculturalismo pacífico.

Mas em alguns países há alguma crispação com a comunidade muçulmana…

Em outras áreas do globo é necessário clarificar posições: erradicar os pequenos grupos que, pela violência, conseguem manchar a imagem do Islão. Conseguem criar essas crispações e diferenças tão violentas que as pessoas acabam por perguntar: “Para onde estamos a caminhar?”

Penso que está a ser feito um trabalho positivo nas sociedades maioritariamente muçulmanas. Actualmente, nos países muçulmanos há um cuidado em dar uma educação às crianças que respeite o próximo. O conhecimento faz falta à civilização. De uma sociedade que se priva desse conhecimento, não se pode esperar bons horizontes. Da sociedade que tenha conhecimento e o aplique, podemos esperar bons resultados.

Como reagiram em Portugal aos cartoons que caricaturaram o profeta Maomé?

Houve duas reacções. Uma manifestação de indignação foi através de comunicados que a mesquita da comunidade de Lisboa enviou à Lusa e a outros órgãos de comunicação, manifestando a sua profunda indignação, não só pelas caricaturas em causa, como eventualmente por outras caricaturas de outros profetas, sejam Jesus, Moisés ou outras personagens de Deus. A outra foi um dia de jejum que se celebrou…

Em desagravo pela falta de respeito?

Sim. Desde a aurora ao pôr do Sol, não comemos nem bebemos, para manifestar a indignação pelo desrespeito pelo profeta Maomé.

Mas não houve um claro repúdio das manifestações violentas…

As imagens de violência não ajudaram a imagem do Islão, como as imagens de outras violências de outras religiões não ajudam essas religiões. Temos por obrigação separar as águas. É o que estamos a fazer, quer aqui em Portugal, quer noutros países. Houve países que travaram as manifestações, porque notaram que a questão de religiosa passou a política.

Mas essas reacções não tiveram grandes ecos…

Mas houve decretos-leis a travar as manifestações. Houve delegações que se deslocaram à Dinamarca e a outros países, dando a entender que a indignação é um direito, mas não justifica a violência que ocorreu.

A violência foi aproveitada por um grupo restrito de pessoas que conseguiu tirar proveitos políticos. Dois países [Síria e Irão] tiraram dividendos políticos, visto que as caricaturas foram publicadas em Setembro de 2005 e a questão só explodiu em finais de Janeiro de 2006, por uma questão política. A indignação religiosa é um direito, mas não justifica a violência.

Há pouco [no debate público que antecedeu a entrevista], referiu a reacção do profeta Maomé a um caso de violência…

A jornada de Taíf. Costumo contar esse caso nas minhas intervenções nas mesquitas. Durante a sua vida em Meca, o profeta foi a essa localidade. Quando lá chegou, para pregar a mensagem de Deus, as pessoas não o aceitaram e mandaram jovens e crianças atrás de Maomé, perseguindo-o, apedrejando-o e maltratando-o de toda a forma. O profeta saiu de lá a escorrer sangue e, quando chegou a um sítio com alguma segurança, sentou-se e, levantando as mãos, disse: “Ó Deus, exponho a minha fraqueza diante de ti e peço perdão”. Ele julgava que não tinha sabido transmitir a mensagem. Deus mandou um anjo das montanhas para esmagar a localidade que tinha tratado tão mal um profeta de Deus. Mas o Profeta pediu que Deus abençoasse aquela terra. A missão do Profeta não era a destruição, mas a salvação da humanidade.

Essa jornada de Taíf deve ser o exemplo vivo da atitude do muçulmano quando é perseguido ou mal-tratado: ignorar a pessoa que o maltratou; não retribuir o mal com o mal, mas com o bem; e voltar a sua atenção para Deus e expor-lhe a sua necessidade e fraqueza. Quando o homem toma as rédeas nas suas mãos e vai ele próprio fazer justiça, a ajuda divina desaparece.

Com exemplos tão vivos, por que é que sobressai uma linha fundamentalista e violenta do islamismo?

Em todas as religiões há extremismos. Mas penso que há um papel preponderante daquilo que se vende. A comunicação social tem um peso enorme no que se difunde. Há uma vontade de pequenos grupos usarem a máquina da comunicação social para fomentar esse tipo de extremismos. E conseguem. A nossa manifestação de jejum praticamente não foi noticiada. Só houve um jornal que a referiu numa pequena nota. Esses grupos são desconhecedores da essência islâmica e aproveitam-se dessa máquina para fins apenas políticos, para fins não-islâmicos.

Considera, então, que o islamismo sabe lidar com a crítica?

Quando o Profeta diz que todo o ser humano é pecador, e o melhor é aquele que pede perdão; quando o Profeta diz que há duas virtudes: pedir desculpa e saber desculpar; quando o Alcorão diz que não se deve pagar o mal com o mal, mas com o bem, porque então o teu ini-migo compadecer-se-á e tornar-se-á amigo íntimo… tudo isto gera tolerância.

A liberdade de expressão é valor fomentado?

Na religião islâmica há direito e liberdade de expressão, ao ponto de Omar (dois anos após a morte de Maomé), segundo califa da era islâmica, numa sexta-feira, que é o dia santo, em plena assembleia, deixar-se interrogar por uma mulher beduína. Se houvesse dificuldade em assimilar a crítica, ela não teria direito de questionar. Se o próprio califa concordou com a mulher, isso significa que o Islão não pode temer a crítica. Pelo contrário, deve saber tolerar a crítica e dar o exemplo, ou divulgando a verdadeira mensagem ou ignorando e deixando as pessoas criticar. Eu não posso impor a minha vontade aos outros, como não gosto que os outros me imponham a sua vontade. O califa Omar tinha um conselheiro financeiro que era um grego cristão – exemplo de multiculturalismo. Era um lugar de destaque num estado islâmico. O Islão tem uma dimensão multicultural. Infelizmente, pequenos grupos querem fazer e mostrar o oposto.

Vemos, no entanto, que entre vários grupos islâmicos há ódios de morte. É o que está a acontecer entre muçulmanos xiitas e muçulmanos sunitas, no Iraque…

95 ou mais por cento dos muçulmanos são sunitas – como eu. Os xiitas denominam-se seguidores de Ali. Uma das razões para a violência é a ignorância.

Quando o Islão começou a expandir-se, havia cidades e havia beduínos, que eram nómadas e não tinham tanto acesso ao conhecimento. Foi um beduíno muçulmano que, devido à sua ignorância, assassinou Ali, o genro do Profeta. Hoje o que acontece é a mesma situação. Alguns muçulmanos, ignorando completamente a sua fé, chegam ao ponto de agir radicalmente contra a própria essência religiosa.

Os sunitas acreditam em Deus e no profeta Maomé. A partir daí não há mais profetas, não há mais mensageiros de Deus. Os xiitas dizem que há doze imãs ou doze líderes que vêm ou virão. Há mais algumas pequenas diferenças…

Volta a insistir no conhecimento e na recusa de ignorância. O Profeta insistiu várias vezes na necessidade de aprender, não foi?

O Profeta Maomé disse duas coisas. Primeiro, “adquirir o conhecimento é uma obrigação de cada crente”. Segundo, “procurem o conhecimento nem que se desloquem à China”. Ele disse China. Mas não está em questão esse país. O que ele quis dizer é que mesmo que seja do outro lado do mundo, vão lá aprofundar os vossos conhecimentos. Há um outro versículo do Alcorão muito curioso: “Acima de um sábio há sempre outro”. Ou seja, por mais que eu saiba, nunca posso dizer que sei tudo. Há um provérbio árabe que diz que o conhecimento é como um oceano: quanto mais a gente mergulha, mais percebe que ele não tem fim. No Alcorão diz-se ainda que se aprende desde o berço da mãe até à hora da morte.

A religião muçulmana acompanha as descobertas científicas?

Claramente. Sobre questões como a clonagem ou se há vida ou não noutros planetas, e sobre o que o Islão pensa disso, há um versículo que diz “Deus tornará acessível a vós tudo o que está nos céus e na terra”. Este versículo é muito amplo e consegue absorver muitas novas pesquisas. Significa que a investigação não tem fim. O limite é quando o homem disser: “Eu posso criar o ser humano”. Isso é o limite, porque aí tem de optar entre se acredita no Criador ou se se autodenomina criador.

Eu gosto muito de astronomia. A mim, aumenta-me a fé. Mas há pessoas que, com algum conhecimento científico, se tornam não crentes. Quanto mais conheço, mais motivos encontro para louvor.

Segundo o calendário islâmico, estamos no ano 1427. Os muçulmanos, em Portugal, seguem o calendário islâmico ou o ocidental?

Seguimos o calendário ocidental em tudo, excepto para as nossas festas. O Ramadão é o nosso 9º mês do ano. No ano passado, foi em Outubro. Este ano, será em finais de Setembro. Com o calendário islâmico lunar, os meses têm 29 ou 30 dias, conforme o ciclo da Lua. Os nossos anos são 10 dias mais pequenos que no calendário ocidental. Quando cheguei a Portugal, o Ramadão era em Dezembro. Muito fácil. Tinha de jejuar das 6 de manhã até às 4 ou 5 da tarde.

Quer dizer que, quando o Ramadão coincide com o Verão, é muito mais difícil?

Sem dúvida. Já viu o que é estar em jejum desde as 5 da manhã até às 9 da noite? [durante todo o mês do Ramadão, o jejum é obrigatório para todos os muçulmanos, excepto crianças, grávidas e doentes; depois do pôr do Sol, podem voltar a comer]. As pessoas podem perguntar: mas por que é que sofrem, não comem, não bebem, porquê? O jejum tem um objectivo muito efectivo. Vai logo direito ao assunto. Faz-nos sentir na pele aquilo que os outros sentem por força da natureza. Aquilo que os pobres passam, porque não têm pão para comer ou água para beber e não sabem onde ir, nós sentimos na pele. Isto cria solidariedade, quer queiramos quer não. Uma pessoa, por mais forreta que seja, com o jejum dá aos outros, porque sente na pele a sede e a fome.

Aos olhos dos ocidentais, a mulher parece que é claramente inferiorizada pelo Islão…

O Islão dá à mulher os mesmos direitos que dá ao homem. Claro que o homem é o chefe da família. A mulher não é escrava da família nem escrava do marido. É senhora de si. O Islão deu à mulher o direito de propriedade. A mulher tem um papel muito importante no Islão. Enquanto mulher, passa por três fases. É filha. E o Profeta diz que o nascimento de uma filha é uma misericórdia de Deus. Depois é esposa. E o Profeta diz que é uma pertença de Deus que está na mão no marido. Por isso, trate-a bem. E é mãe. Em relação à mãe, o profeta diz: “Debaixo dos pés da mãe está o paraíso”. Se você tratar bem dos pés da mãe pode ganhar o paraíso; imagine se tratar bem a mãe toda!

Uma vez perguntaram ao profeta: “Entre todos os seres, quem é que eu devo tratar bem?” E ele respondeu: “A sua mãe”. “E a seguir?” “A sua mãe”. “E depois?” “A sua mãe”. À quarta diz: “O pai”. Por que é que o profeta valorizou três vezes mais a mãe do que o pai? Porque ela passa por três fases que o homem não tem: a gravidez, tempo de inúmeras dificuldades; o parto; e a amamentação.

“Uma mulher, depois do parto, ganhou uma nova vida da parte de Deus”, diz o Profeta. Aquilo que ela sofre um homem nunca consegue saber. Conto um caso. Um homem carregou a sua mãe aos ombros e levou-a em peregrinação a Meca. O Profeta perguntou-lhe: “Quem é esta senhora”. “É minha mãe”, disse o peregrino. “Ela não pode andar, mas como me criou, estou a fazer isto por ela”. O Profeta disse: “Aque-e uf que ela disse na altura do parto, você, mesmo trazendo-a 70 vezes, não faz o mesmo uf que ela fez”.

O nascimento de uma filha é uma misericórdia. Antigamente os árabes enterravam as filhas vivas. O Alcorão condenou e tornou o nascimento de uma filha uma misericórdia. A mulher muçulmana é dona de si e do que ganha. Não tem de dar ao marido. Ela pode trabalhar desde que cumpra algumas regras, como as do vestir. O homem tem de se cobrir do umbigo aos pés; a mulher cobre o corpo todo, para preservar a castidade, excepto o rosto, as mãos e os pés.

Há, no entanto, algumas tribos paquistânicas, afegãs e africanas que denigrem e diabolizam a mulher.

Quer dizer que a inferiorização é cultural e não religiosa?

Quando se fala do Islão tem-se uma ideia machista. Mas um dia perguntaram à esposa do Profeta: “o que é que ele faz em casa?” E ela responde: “quando ele entra, sorri. Depois, a primeira coisa que ele faz é limpar os dentes, para que a mulher não sinta mau odor. Quando está em casa, o Profeta limpa a roupa, remenda e tira o leite à cabra…”

Se o Profeta fazia isso, hoje o muçulmano não pode ficar sentado e exigir que a comida esteja pronta. As tradições machistas vêm de influências culturais das próprias tribos. Ganharam o rótulo da religião, mas não têm nada a ver com o Islão.