1. “Como se faz um Santo”, do Cardeal Saraiva Martins, é um livro exemplarmente saboroso.
Um livro que é um roteiro, uma peregrinação espiritual pelos caminhos para a santidade. Profundo e estruturado no pensamento, pedagógico na abordagem “técnica” e “processual”, esteticamente belo, minucioso nos detalhes, revelador na curiosidade procurada pelo leitor.
Se escrever um livro é estar com o outro que está dentro de nós, como dizia Vergílio Ferreira, ler um livro como este é, para mim, ser com o outro que entrou em nós.
De entre a imensidão do desfrute desta obra, é difícil seleccionar e sintetizar o que dela mais aconte-ceu e ficou em mim.
Arriscaria, no entanto, sublinhar a principal mensagem que retive: a natureza “natural”, “normal” da santidade. Diz o Senhor D. Saraiva Martins que a santidade não consiste em fazer nada de extraordinário, longe do alcance do homem comum, mas sim fazer sempre e bem as coisas ordinárias, no trabalho, na família, na sociedade, na vocação.
A Santidade requer o heroísmo na prática das virtudes e a grandeza da vida comum. Nada fora do comum, do nosso mundo, nada de “exótico”.
Por isso, no livro se desenvolve a ideia central da convergência inerente à santidade, que, como perfeição da humanidade, se revela no homem que entra em Deus e em Deus que abraça o homem. Assim se atinge a perfeição da caridade, entendida como a mais elevada medida de amor para com o Criador e para com o próximo. São Paulo haveria de sintetizá-la numa curtíssima expressão: não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim.
2. Numa sociedade de “zapping”, comportamentalmente hedonista, moralmente minimalista e relativista, traduzida num eclipse de valores (expressão do autor no livro), socialmente predadora e subjugada à “ditadura do eu-em-primeiro-lugar”, fóbica em relação ao transcendente, o santo exprime um projecto de vida contra a corrente. Porque, como se diz no livro, subir montanhas é sempre muito difícil. É mais fácil viver na planície.
Ser santo sempre representou uma forma de subversão, traduzida em cada época de modo diverso e, como regra, vivida na ausência de qualquer forma de poder, que é onde se revela toda a força da presença de Deus.
Se bem percebo a ideia e a prática da santidade, podemos ver nela um tesouro de vida que nos ensina:
Que o mais difícil de alcançar é o simples.
Que o mais possível de alcançar é o que mais impossível parece.
Que o maior alimento do direito é o dever.
Que o mais aparentemente insignificante sacrifício pode ser o mais virtuoso.
Que a maior recompensa do corpo é a serenidade da alma.
Que a mais radical sinceridade é irmã gémea da verdade.
Que a mais austera perseverança é irmã gémea da bondade.
Que a mais pura humildade é irmã gémea da beleza.
Que o heroísmo é a persistência paciente na luta de cada dia.
Que a caridade é o coração da inteligência e a inteligência do coração.
Que na autenticidade está a verdade do comportamento.
Que na fidelidade está o coração do comportamento.
Que o erro é a constatação da nossa debilidade, mas, ao mesmo tempo, a bússola da nossa capacidade.
Que a mais minúscula verdade supera as mais poderosas mentiras.
Que a mais insignificante das perfeições é preferível à mais sonante das imperfeições.
Que o importante não é dissolvido no urgente, avulso ou superficial, porque o importante nem sempre é urgente, raramente é avulso e nunca é superficial.
Que o optimismo radica na esperança, na virtude, no trabalho e que o pessimismo radica na indiferença.
Que as virtudes existem para ser praticadas e não apenas enaltecidas.
Que o exemplo é o caminho mais curto para o bem e o mais contagiante para os outros.
Que a partir do nosso interior se pode transformar o que nos é exterior.
Que o dever de trabalhar e partilhar começa no nosso interior e prolonga-se no interior dos outros.
Que ao utilitarismo estéril se responde com a humanidade fecunda com que a vida se deve viver em cada momento.
Que a abnegação, para além do que transporta de dedicação, é o antídoto para o individualismo predador.
Enfim, que a esperança se espera, sem esperar…
Com este livro e no fim de tudo, fica-nos o gosto por mais, Senhor Cardeal, e a ideia central – voltando a citar Bento XVI – de que, se Deus não está presente tudo se torna completamente insuficiente.
