Dias positivos Alexandre O´Neill dizia que Portugal era uma questão que tinha com ele próprio (ele, o poeta). Agora, viemos a saber que não é só o poeta que tem um problema chamado Portugal. Segundo um estudo divulgado na imprensa, a maioria dos portugueses residentes no continente não se interessa pelo país, declara-se infeliz e é pessimista quanto ao futuro. Em concreto, 85 por cento da população portuguesa residente em Portugal continental não está “envolvida” com o país, e 42 por cento dos portugueses declaram-se infelizes e mostram-se dos mais pessimistas face ao futuro, entre todos os residentes nos 25 países da União Europeia.
De acordo com Luís Simões, director-geral da TNS Portugal, empresa que fez o estudo, baseando-se em 800 entrevistas, Portugal “é um país mais atractivo para os portugueses não residentes, enquanto os residentes não se interessam por ele”. Ou seja, se saíssem do país, os portugueses passavam a gostar um bocadinho mais de Portugal. É fácil imaginar as saudades dos portugueses no exterior: “Ai o nosso café, ai a nossa comida, ai o nosso clima, ai as nossas praias…” Só que – diz o estudo – os portugueses não optam pela emigração devido ao custo de saída e às dificuldades de mobilidade da família e do emprego. Ou seja, gostam de andar insatisfeitos. Creio que é a isto que antigamente se chamava “fado”.
Tendo em conta estes resultados, se Portugal fosse uma marca, com níveis tão baixos de sedução, Luís Simões “não investiria nela”. Não investiria ele, nem investem os portugueses. No início desta semana, um outro estudo dizia que, devido à baixa de natalidade, em 2050, Portugal será o país mais pobre da União Europeia a 25 (ou seja, com os países de Leste que aderiram por último e que, por enquanto, na generalidade, são mais pobres). Será o mais pobre, porque envelhecido, sem gente nova, logo, sem ideias, sem inovação, sem risco. Como bem lembrou o psiquiatra Freitas Gomes, no último sábado, falando numa iniciativa de casais cristãos (a que o Correio do Vouga dará espaço na próxima edição): “Dizemos que o lince da Malcata está em extinção porque se reproduz a uma taxa de 2; mas os portugueses reproduzem-se a uma taxa de 1,1…”
No meio disto tudo, há, no entanto, quem acredite em Portugal. Dois exemplos que saíram nos jornais ao mesmo tempo que as referidas más notícias. Primeiro: Um autor espanhol, António Baños-Garcia, escreveu um livro sobre D. Sebastião, o rei morto em Alcácer-Quibir. Há bem pouco tempo, um outro espanhol escrevera um livro sobre Viriato. É curioso ver duas figuras-chave da história portuguesa estudadas por espanhóis. Será que representam uma tendência de interesse de estrangeiros pelo passado do país dos que não acreditam no futuro? Segundo: Famílias brasileiras, sorridentes e comunicativas, vêm do Paraná, Sul do Brasil, para Vila de Rei, aquele concelho no centro geográfico de Portugal que no Verão é motivo de notícia devido aos incêndios gigantescos. Vêm com esperança e olham para Portugal como país de futuro.
Parece, cada vez mais, que a solução para Portugal, está fora do país, em Angola, Cabo Verde, Ucrânia ou Brasil. Os imigrantes, pelo simples facto de partirem à procura de melhor, são factor de optimismo.
Os portugueses podem estar pouco envolvidos com o país. Mas, felizmente, há quem acredite no futuro de Portugal.
