Páscoa em Moçambique

Passo a passo caminhamos rumo ao Mundo, caminhamos para os sorrisos e as cores, caminhamos para a fé e para o Amor.

Seguimos em frente, paramos e, naquele instante, deixamos de ser nós… Somos transformados pela Vida, pelo Amor! Olhamos em redor e deparamo-nos com as cores do mundo, cores que as aguarelas nunca conseguirão reproduzir, ouvimos melodias que nenhum instrumento criado pelo Homem pode imitar, vivemos como nunca antes havíamos vivido…

Na porta da capela da Comunidade, observamos as famílias, as crianças, as mamãs. Todos vestidos com o que têm de melhor: umas mamãs passeiam-se em camisas de dormir, que, com as suas rendas, se tornam em vestidos de baile; os pés descalços muitas vezes são calçados com o que algum dia já foram sapatos ou chinelos.

Entram e sentam-se em bancos improvisados, bancos feitos com tábuas remendadas como as colchas da minha avó. O seu único luxo é ter um padre que vem celebrar a missa, pois muitos há que vêem um padre uma ou duas vezes na vida. As janelas improvisadas; em algumas capelas apenas buracos onde a chuva e o vento brincam às caçadas.

Os tijolos destas capelas e igreja são as pessoas, não no sentido literal; mas foram as mãos calejadas deles que as construíram, foram as ruas renúncias, esforços e abstinência que permitiram ter um local onde receber o padre, onde se encontrar com Deus, o seu lugar sagrado.

Visitámos uma das comunidades do interior, no mato, onde se fala o Lomwe e que o padre visita quando pode (de muito em muito tempo); e, com a fome e as dificuldades que já eram esperadas, fomos recebidos com chima [papas de milho] e frango. Embora haja pouco, esse pouco é sempre partilhado. Nos bancos onde cabem dez, cabem quinze (isto em qualquer lado em Moçambique).

Por trás do altar, nem sempre está a cruz que estamos habituados a ver em todas as Igrejas; mas nos seus corações está DEUS, aquele que nós remetemos para segundo plano nas vezes em que nos preocupamos com os bancos onde nos vamos sentar, com as roupas que os outros trazem, com o tempo que perdemos quando vamos à missa. Sei que também nós temos Deus no nosso coração, mas é nesta simplicidade, nesta humildade e desprendimento que Deus nos abraça por completo e nos faz Homens e Mulheres de Fé!

Que esta Páscoa não seja mais uma, em que as nossas preocupações serão a refeição, as amêndoas… mas sim o Amor que Deus nos tem manifestado, pelo seu Filho muito amado.

Carina e Paulo

(casal missionário de Albegaria-a-Velha)