A grande tragédia que se abate sobre o mundo

Mais uma vez, por motivos trágicos, o mundo está unido na ajuda e na solidariedade. É com grande alegria que olho para esta faceta do nosso mundo. Até os bloqueios do espaço aéreo deixam de o ser para ajudar o que resta de um povo: já não estão em causa as cidades destruídas, mas são os seres humanos, reduzidos a quase nada e massacrados ainda mais na sua enorme pobreza. Quanto vale o ser humano nestas circunstâncias! Aqui, todo o mundo está de acordo.

As tragédias naturais sempre existiram, e não serão mais hoje do que nos tempos passados. A diferença está em que a informação quase não chegava, e, do muito que sucedia no mundo, nada era conhecido senão pelos mais próximos, pelo menos com a intensidade que as novas tecnologias nos permitem alcançar hoje. Não é mau, bem pelo contrário. A chamada aldeia global permite-nos esta presença efectiva do mundo a entrar diariamente pelas nossas casas e a entalar o nosso próprio coração.

Ricos ou pobres, grandes ou pequenos, todos estamos solidários e desejosos de ajudar, e quanto mais pobres são os atingidos mais vontade temos nós de entrar na corrente.

Mas que bom seria se o mundo fosse sempre assim no dia-a-dia!

Infelizmente há a outra faceta, aquela que se mostra e vive na, digamos assim, normalidade. E a normalidade está cheia de tragédias grandes dimensões. Se pensarmos nos milhares de pessoas que todos os dias morrem de fome, se pensarmos nos milhões de leprosos, nos milhões de refugiados, nos massacres por motivos raciais e étnicos, nos perseguidos por intolerância política, social ou religiosa, nas vítimas inocentes das guerras e do terrorismo, nos milhões de indefesos e em condições indignas de saúde e de habitação, dos milhares e milhares de explorados pela força dos opressores ou colonizadores, escondidos debaixo da capa do desenvolvimento, dos inúmeros sem-abrigo em todos os cantos, das crianças vítimas do tráfico sexual e da exploração do trabalho infantil, dos milhões de desempregados despedidos através de tantos e tantos processos obscuros… se pensarmos nisto a sério, concluímos que este mundo tão solidário não existe, senão nessas circunstâncias extraordinárias.

É isto que faz doer a alma e atira milhões e milhões de pessoas para a fome, para uma vida de desespero e sem sentido, e mesmo para a morte, perante a indiferença dos donos e senhores deste mundo, que, à sua maneira, vai criando em nós a mentalidade de que a vida é mesmo assim.

Quando há situações trágicas que resultam da própria natureza e suas forças, apesar do mal-estar, sofrimentos e dor que nos causam, nós acabamos por nos conformar. Pena é que, ao contrário, quando tais tragédias são criadas e desenvolvidas pelo ódio, pela vingança, pelo mau uso das tecnologias, pelo desejo insaciável do poder ou do dinheiro, numa palavra, pela vontade clara de um ser humano dominar e controlar outro ser humano, estejamos perante verdadeiros crimes contra a humanidade: o homem destrói o seu irmão, e ficamos indiferentes. É o mundo do Caim e do Abel!

Pois é! É por isso que as pessoas que lutam pela justiça fazem apelo contínuo a uma equitativa distribuição de riquezas e bens, uma vez que os bens e riquezas da humanidade são de todos para benefício de todos. Dificilmente os pobres exploram os ricos e, se o fazem, serão “exemplarmente” castigados. Porém, muito facilmente os ricos exploram os pobres, e quanto mais pobres mais explorados, sem que os culpados sejam exemplarmente castigados (sem aspas).

Quantas revistas há em Portugal a falar dos problemas dos mais pobres? Quantas há a falar dos mais ricos e suas excentricidades? Ainda por cima, são os pobres a alimentar esta forma de meter dinheiro nos bolsos de uns quantos a quem a comunicação social acolhe, enaltece e publicita.

Acredito ser possível que o mundo tenha sempre a mesma face: a da entreajuda, da solidariedade, do pão para todos, da paz e a do amor. O mundo que Deus quer é este. Vamos lutar por ele assim.