O espírito e os seus dons

Revisitar o Sínodo Diocesano O Santo Padre convocou, no pretérito sábado, o II Encontro Mundial de Movimentos e Comunidades. Fora João Paulo II a convocar o I, no Pentecostes de 1998. A cerca de meio milhão de pessoas, o Papa recordou que o Espírito Santo suscita continuamente novos dons, fomenta a diversidade, que vai junta com a unidade, para mútuo enriquecimento.

Mesmo correndo o risco das repetições, vale a pena recordar o documento conciliar Apostolicam Actuositatem, o primeiro documento da Igreja dedicado especificamente aos leigos, uma novidade, um verdadeiro sinal dos tempos. Algumas das suas afirmações principais, mesmo em linguagem ainda um pouco clássica, são horizontes novos, consciência diversa.

“A vocação cristã é, por sua natureza, vocação ao apostolado” – n.º 2. Portanto, por direito e por dever, todos os cristãos são apóstolos. Essa condição vem-lhes da sua união com Cristo, que é assegurada pelos sacramentos da iniciação cristã, alimentada pela vida de fé, esperança e caridade e configurada pelos dons espirituais que o Espírito concede a cada um.

Primeira consequência importante é esta: “É o próprio Senhor quem mandata cada um de nós para o apostolado” – n.º 3. Por isso, a mesma fonte de todo o apostolado reclama que as relações entre todos, leigos e ministério ordenado, sejam de diálogo e corresponsabilidade. À hierarquia cabe discernir os dons e promover a sua mútua integração; não deverá tolhê-los, mas antes estimulá-los e acolhê-los.

Segunda consequência é que, exercitando-se o apostolado em comunhão eclesial, é preciso ultrapassar visões institucionais jurídicas e administrativas dessa comunhão, para acolher a sadia tensão que o Espírito suscita. Todos somos sujeitos activos e responsáveis.

A última consequência é esta: a missão não é uma dimensão paralela da vida; ela repassa a existência dos cristãos em todos os momentos e circunstâncias – a família, a sociedade, a profissão, o lazer, a vida comunitária, a celebração… E daí resulta que o apostolado não se refere a uma evangelização e santificação da pessoa humana isolada da realidade, mas ao próprio aperfeiçoamento da realidade material e social.

É que – e esta é outra ideia importante do Concílio – o mundo não é um dos “inimigos da alma”, de quem temos de fugir, para sermos santos. Mesmo que, ao longo da história, nós tenhamos manchado muitas vezes a criação pelo pecado, toda a realidade criada por Deus é boa e nela se fecunda continuamente a salvação operada por Jesus Cristo. É no seio dessas realidades e com elas que a Igreja vive a sua Missão.

(cont. no próximo núnero)

Querubim Silva