A ortodoxia não é, apenas (como muitas vezes se afirma), a salvaguarda da moralidade e da ordem, mas, também, o único guarda lógico da liberdade, da inovação e do progresso. Se desejarmos derrubar um próspero tirano, não o poderemos fazer com a nova doutrina da perfectibilidade humana: fá-lo-emos apenas com a velha doutrina do Pecado Original. Se desejarmos arrancar pelas raízes crueldades inatas ou erguer do marasmo em que jazem populações perdidas, não o poderemos fazer com a teoria científica de que a matéria precede o espírito; fá-lo-emos com a teoria sobrenatural de que o espírito precede a matéria. Se desejarmos, inclusivamente, acordar um povo para uma constante vigilância social e para uma luta sem tréguas, nada conseguiremos com as teorias da imanência de Deus ou da Luz Interior, porque estas são, quando muito, razões para contentamento; temos de insistir sobre a transcendência de Deus e o fulgor que flutua e se escapa: isso significa o descontentamento divino. Se desejarmos, particularmente, radicar a ideia dum equilíbrio generoso contra a ideia duma autocracia pavorosa, teremos de ser trinitários e nunca unitários(…). Se queremos, ainda, exaltar o proscrito e o crucificado, temos de nos lembrar de que um verdadeiro Deus, e não um simples sábio ou herói, foi crucificado também.
Gilbert Keith Chesterton
Gilbert Keith Chesterton (1874–1936), escritor inglês, católico, chamado de “príncipe do paradoxo”, por usar como ninguém essa figura de estilo nos seus escritos. Em obras como “O que está mal no mundo” ou “Ortodoxia”, Chesterton, que escreveu mais de 4000 mil ensaios e uma série de contos policiais em que o detective é o Pe Brown, faz uma defesa vigorosa do catolicismo. É deste autor uma frase muito citada: “Quem diz que não acredita em Deus, acaba por acreditar em tudo”.
