O paradoxo do preconceito

O preconceito ideológico, sobretudo quando se mistura com a obsessão do fanatismo laicista, tem muita dificuldade em ser coerente e, pior que isso, em lidar com a verdadeira liberdade, em defender e promover a autêntica democracia. E cai nos mais flagrantes paradoxos.

Há dias, ainda a propósito do protocolo de Estado, um colunista de renome falava da “separação inacabada”, para enumerar coisas válidas e coisas sem significado, mas também para referir falta de ousadia e clareza dos políticos, quando não resistem à tentação de estar em cerimónias públicas religiosas.

É verdade! A guerra do laicista governo espanhol contra a Igreja Católica configura uma absoluta falta de liberdade religiosa, como aliás entre nós, pelo menos no que ao ensino se refere. A provável eliminação das despesas com a educação do rol das dedutíveis em IRS poderá ser mais uma forte condicionante à liberdade de ensino.

Mas – pasme-se! – o Primeiro Ministro espanhol fez-se anunciar como presente nas celebrações religiosas em memória dos mortos no trágico acidente do Metro de Valência. Afinal, é útil politicamente fazer a farsa de estar em actos religiosos! Como entre nós! A Igreja, a quem se criam todas as dificuldades no “púlpito” da Educação, é chamada muitas vezes, a prestar serviços ao Estado, o qual, apesar do choque tecnológico, reconhece que o anúncio de viva voz, em assembleias litúrgicas, ainda recolhe eficácia.

Foi publicado recentemente, pela Ajuda à Igreja que Sofre, o relatório anual sobre liberdade religiosa. Pelos vistos, em circunstâncias como as que enumero, parece que tudo está bem!… Claro que cercear a liberdade de movimentos, mover perseguição, exercer violência… ferem profundamente a nossa sensibilidade. Mas não será mais grave querer condicionar o pensamento, a convicção educativa, a estrutura moral interna, a configuração da profissão de fé?

Tem razão o Papa Bento XVI, quando refere que há gente apostada em afastar Jesus Cristo da História! Em vão – temos a certeza! Mas não podemos ficar pela esperança de que “Se Deus está por nós, quem estará contra nós?”. Sem guerras santas, urge que saibam quantos se entendem iluminados que não somos cidadãos de segunda, que também temos projectos de educação, que somos tão activos e produtivos como os “ateus”, como os agnósticos, como os oportunistas de credo religioso ou político. Se não mais, uma vez que aqueles que têm o Evangelho no sangue não se escondem com desculpas fáceis.

Caiam as máscaras! Quem é que se manifeste! Quem não quer ser que se declare! Quem tem o poder que não descrimine! Quem não tem medo que avalie e compare!… E que todos sejamos humildes para reconhecer o mérito, integrar o esforço, harmonizar as diferenças!