Questões Sociais 1. Na concepção e na prática da socialização política, realçam-se duas tendências: a corrente defendida pela doutrina social da Igreja (DSI); e a defendida pelos partidos socialistas, social-democratas e até pelos democratas cristãos. Na perspectiva da DSI, assumida pelo menos desde João XXIII, a socialização processa-se em três patamares e na relação entre eles: o primeiro pa-tamar é o da proximidade básica – família, vizinhança e amizade, voluntariado local…; o segundo patamar respeita aos “corpos intermédios” – associações, fundações, empresas e outras organizações não governamentais, qualquer que seja a sua formalização; o terceiro é o do Estado, com os seus diferentes órgãos, organismos e instituições.
Ao contrário da DSI, a socialização defendida pelas referidas correntes políticas privilegia a acção do terceiro patamar, em prejuízo dos outros. Deve anotar-se que tanto a DSI como estas correntes são favoráveis ao papel regulador do Estado, com eventual recurso a nacionalizações, quando o bem comum o exija; mas, enquanto a DSI considera indispensável a optimização dos três patamares – reconhecendo o primeiro como básico –, as correntes políticas secundarizaram os dois primeiros e consideraram básico o terceiro, transferindo para ele o grosso das responsabilidades sociais. A própria democracia cristã entrou neste jogo, a pretexto da garantia de direitos que ele oferecia, alegadamente, e das vantagens eleitorais que proporcionava.
2. Ao menosprezarem o primeiro e o segundo patamares, as correntes políticas esqueceram-se não só da longa tradição que precedeu a revolução liberal mas também da renovação do segundo patamar ocorrida no século XIX, através do mutualismo, do cooperativismo e das colectividades de cultura e recreio. No caso particular dos socialismos, acontece que esqueceram não só a sua origem associativa mas também o seu destino e ideais: a superação do sistema capitalista.
Hoje em dia, não existe nenhuma corrente política que apresente caminhos realistas, humanistas e eficazes de superação do capitalismo. Pior do que isso: parece não existir, no nosso país, produção sistemática doutrinária marcada por esta orientação.
3. Independentemente de opções confessionais, talvez os partidos socialistas e, naturalmente, as restantes correntes políticas lucrassem bastante com o conhecimento e aprofundamento da socialização, segundo a DSI (que aliás os próprios cristãos, em geral, também não cultivam nem praticam). Esta perspectiva da socialização insere-se na tradição ancestral (crente e laica), assume as dimensões positivas das diferentes correntes políticas e contém um inigualável potencial de desenvolvimento futuro, com bases para as respostas aos graves problemas actuais (cfr. a entrada “socialização”, no “Compêndio da DSI”, Principia, 2005).
