Dois comentários

A sucessão de catástrofes naturais conhecidas nas últimas semanas, batendo-nos também à porta pelo drama vivido na ilha da Madeira, deixa muita gente perplexa e confusa, especialmente face ao sofrimento de tanta gente inocente.

Este aparente silêncio de Deus angustia e atemoriza uns, revolta outros tantos. Como é possível que a Bondade eterna não proteja os inocentes? Como é possível que a Perfeição absoluta não acautele as surpresas da natureza?

Dois comentários se nos oferecem a propósito. O primeiro, para reconhecer e propor o que é óbvio. A natureza, a própria natureza humana, é frágil e provisória. Chamado o mundo e o ser humano a esperar “novos céus e nova terra”, o percurso do espaço e do tempo é feito como que em dores de parto, em permanente expectativa da libertação e transformação definitiva.

Acolher este carácter frágil, vulnerável, provisório, da pessoa e do mundo, gera um respeito pelo que nos ultrapassa, uma esperança serena e confiante na plenitude que nos espera; sem sabermos o como e o quando, seguros, todavia, de que não será o fim, mas um novo começo.

Depois, uma programação definitiva e estática, anularia toda a responsabilidade humana no contexto da criação. Por vontade divina, o mundo foi entregue nas mãos do ser humano, para que descubra sempre mais os seus potenciais e limites e empenhe as suas capacidades em o melhorar.

E todos sabemos como horizontes perversos, visões míopes do cosmos e da pessoa, distorcem as responsabilidades humanas e podem transformá-las em verdadeiras intenções criminosas. Sem desculpas fáceis, certo é que a honestidade força a reconhecer que os seres humanos têm perturbado e desafiado loucamente as regras da evolução da natureza.

Os esforços de recuperação da harmonia, para remediar os danos causados no planeta, por muito expressivos que sejam, têm ainda longo caminho a percorrer. E, seguramente, não alcançarão repor em definitivo os prejuízos causados. Prosseguir é a nossa obrigação. Certos de que nem tudo está ao nosso alcance.