Efeitos maléficos do “eduquês”

Livro O autor

Nuno Crato tem vindo a assumir uma visibilidade que coroa um percurso académico digno de referência. É professor no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, e Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, sendo, também, colunista do semanário Expresso e colaborador em programas de televisão (4xCiência, 2010). Na base de toda esta sua intervenção, está a sua formação académica, que culmina com doutoramento em Matemática Aplicada, realizado nos Estados Unidos, onde trabalhou, durante alguns anos, como professor e investigador.

O ‘eduquês’ em discurso directo: uma crítica da pedagogia romântica e construtivista sucede a outras publicações em que é autor ou co-autor: Trânsitos de Vénus e Zodíaco: Constelações e Mitos, que têm em comum com este opúsculo o facto de se proporem desmontar preconceitos pouco científicos e repor, no seu lugar, a verdade.

A obra e o seu contexto

A obra que, agora, apresentamos, poderá ser situada na senda do que de mais interessante se vem fazendo no âmbito da literatura de polémica, em Portugal. O tom em que é escrita faz lembrar a recente disputa livresca entre Boaventura Sousa Santos (BSS) e António Manuel Baptista (AMB). Não apenas na forma (por ser em dinâmica de polémica), mas também no seu conteúdo. É que, em última instância, o que ali e aqui se discute é, no fundo, se ainda haverá lugar para a verdade. Entre BSS e AMB, a discussão é sobre a verdade na ciência; aqui, em Nuno Crato, é sobre a verdade, o erro e a opinião, na educação. Uma questão basilar, quando se discute se estaremos situados no paradigma moderno ou se no pós-moderno (conteúdo, aliás, sempre presente, na referida disputa).

Nuno Crato denuncia, de uma forma que prende o leitor ao fio do pensamento tornado escrita, os efeitos nefastos do ‘eduquês’, «linguagem (quase) esotérica» do mundo de algumas ciências da educação (e já identificada por Marçal Grilo, aquando da sua passagem pelo Ministério da Educação), que propõe a redução da educação escolar ao âmbito da opinião, da mera discussão, sem pretender ou assegurar a transmissão do conhecimento objectivo. A identificação desta linguagem autónoma, do mundo das ciências da educação, conduz o nosso autor à formulação de um diagnóstico profundo que o leva até à causa última – a influência de uma visão excessivamente optimista das capacidades do aluno, na senda de Rousseau, para quem «somos naturalmente bons, a sociedade é que nos corrompe». Tal optimismo estrutura-se numa interpretação do construtivismo, emanado de Piaget (e das indevidas interpretações que dele se fizeram), enterrando toda e qualquer concepção educativa que concedesse lugar privilegiado à memória, ao esforço, ao desenvolvimento de rotinas. O novo modelo, formulado no quadro do dito ‘eduquês’, coloca no centro a motivação, o prazer, o contexto e já não a aprendizagem, o conhecimento. Ora, como nos leva a concluir o autor, tal inversão das finalidades educativas conduz a propostas que, por si só, deveriam ter conduzido à constatação de que essa linha de concepção da educação não deveria ter sido adoptada oficialmente por quem dirige os rumos do ensino e da educação, em Portugal. Entre as propostas denunciadas por Nuno Crato está uma que não nos esquivamos a citar: «A disciplina de Matemática deve ser urgentemente eliminada dos currículos do ensino básico. (…) Em vez da disciplina de Matemática seja criada a disciplina ou área disciplinar de educação matemática (…) o essencial da disciplina não será a Matemática mas o seu uso.»

Por si só, tal citação é tão significativa que deixamos ao leitor a sede de descobrir como se chegou até aqui, no mundo do ‘eduquês’.

O ‘eduquês’ em discurso directo: uma crítica da pedagogia romântica e construtivista.

Nuno Crato

Gradiva

131 páginas