Apaixonados pela missão

Depois de um ano em Moçambique, casal jovem parte para a Libéria Paulo e Carina, jovem casal de Albergaria-a-Velha, passaram o último ano numa missão de Moçambique. Hoje, depois de mês e meio junto dos familiares, deverão chegar a Monróvia, capital da Libéria. Espera-os um campo de refugiados, no interior do país.

“Não vejo isto como voluntariado. Vejo como vocação. Desde os 13 anos que me sinto chamado a ser missionário. Entendo o meu trabalho como uma resposta a essa vocação. É o que me sinto melhor a fazer e é aquilo para que tenho mais capacidades”. As palavras são de Paulo Castanheira, a pouco mais de 24 horas de partir para a Libéria, com Carina Ferreira, sua mulher.

Antes deste projecto, o casal esteve em Moçambique, numa missão coordenada pelos missionários dehonianos. Quando partiram, em Agosto de 2005, previam estar lá ano e meio. Afinal, estiveram apenas um ano. “Tínhamos como destino Milebane e um trabalho essencialmente pastoral, mas ficámos em Gurue, na província da Zambézia, porque o padre com quem íamos colaborar entretanto foi transferido”, conta Paulo Castanheira. O casal acabou por dedicar-se à formação. Ele ensinou informática e inglês. Ela coordenou a biblioteca e a secretaria da escola do Centro Polivalente Leão Dehon. Apesar da exigência não ser grande, o casal reconhece que não tem vocação nem formação pedagógica para dar aulas e não esconde alguma decepção no decorrer dos trabalhos. “Passou a haver uma inversão. Só no tempo livre é que desenvolvíamos as actividades para as quais estamos vocacionados”. E quais eram essas actividades? “Apoio ao orfanato Arco-íris, que tinha 30 crianças órfãs ou abandonadas por motivos económicos, e catequese na prisão, a par com aulas básicas”, conta o jovem missionário.

Próxima paragem: Libéria

Agora, o casal tem como destino Scalepie, no interior da Libéria. Nesta localidade, situa-se um campo de refugiados da Costa do Marfim e de retornados da própria Libéria, que ainda bem recentemente foi dilacerada por guerra civil. Refira-se que é desta zona, a África Ocidental, que partem os barcos de imigrantes que quase todos os dias tentam chegar às Ilhas Canárias e, consequentemente, à União Europeia.

Paulo e Carina vão trabalhar com o Serviço dos Jesuítas aos Refugiados, uma ONG da Companhia de Jesus, presente em 50 países. Contactaram o SJR pela Internet, enviaram os seus dados e trabalhos desenvolvidos, e foi o próprio SJR-Internacional que indicou o campo da Libéria, depois de uma entrevista em Lisboa. No campo de refugiados, os marfinenses aprendem “actividades de geração de rendimento” como padaria, carpintaria e construção civil. A função do jovem casal será coordenar esses projectos e alargá-los aos liberianos da localidade. Prevê-se ainda que, mais tarde, colaborem num jardim-de-infância.

Regresso dentro de um ano

Paulo e Carina esperam regressar a Portugal dentro de um ano, não em definitivo, mas pelo tempo suficiente para que Carina faça o curso superior de Educação Social. Nessa altura, certamente as suas famílias ficarão mais sossegadas. “A nossa família apoia-nos, porque foi uma decisão nossa”, diz Carina Ferreira, “e não propriamente por quererem que vamos. Por eles, não íamos. Mas, como gostam de nós e é uma decisão nossa… Estivemos um mês e qualquer coisa cá em Portugal e já estamos de partida. Não é como ir para a França ou para o Luxemburgo”.

Perfil do casal missionário

Paulo Castanheira e Carina Ferreira casaram em Agosto de 2005. A lua-de-mel foi passada em missão, como na altura referiu o nosso jornal.

O jovem casal conheceu-se nos grupos de jovens da paróquia de Albergaria-a-Velha. “Como antes de nos conhecermos, cada um já tinha projectos de missão, foi fácil juntar o útil ao agradável”, afirma Carina Ferreira.

Ele, 31 anos, tem o 12º ano e o Curso de Música do Conservatório.

Ela, 23 anos, tem o Curso Técnico-profissional de Animação Sócio-cultural.

Ambos participaram anteriormente em “pequenas experiências missionárias”, em Moçambique e no Brasil, no caso do Paulo, e apenas em Moçambique, no caso da Carina, apoiados pelos Padres Dehonianos, pela Diocese de Aveiro ou pela Sociedade Missionária da Boa Nova.

Com esta última entidade, também conhecida por “Missionários de Cucujães”, Paulo Castanheira desenvolveu uma actividade profissional, mais profunda. Durante três anos foi secretário, remunerado, e coordenou projectos ligados aos direitos humanos e de formação de outros leigos missionários. Antes de casar, surgia com frequência a sugestão: “Porque não padre missionário?” “Entendi o meu caminho sempre da mesma maneira: casado e missionário”, conta ao Correio do Vouga. “Nunca quis separar estas duas dimensões. Felizmente pude concretizar”, conclui.