“Cristianismo é mais do que um conjunto de proibições, é uma opção positiva”

Em Agosto, Bento XVI concedeu uma entrevista a meios de comunicação alemães e à Rádio Vaticano. A poucos dias da visita à Alemanha, o Correio do Vouga apresenta os principais assuntos abordados pelo Papa. O texto foi adaptado a partir de uma tradução da Rádio Vaticano.

Na Alemanha, de 9 a 14 de Setembro, o Papa irá a Munique, cidade da qual foi arcebispo de 1977 a 1982, peregrinará ao Santuário de Altotting, símbolo do catolicismo bávaro, visitará Marktl am Inn, sua terra natal, e Ratisbona (Regensburg, em alemão). Nesta cidade, onde Joseph Ratzinger foi catedrático, vive o seu irmão, Georg, e estão sepultados vários familiares.

Motivo da visita à Alemanha

O motivo da visita consiste exactamente no meu desejo de ver, uma vez mais, os lugares e as pessoas junto das quais eu cresci, que me marcaram e fazem parte da minha vida; pessoas às quais desejo agradecer. E, naturalmente, também levar uma mensagem que vá além da minha terra, como é coerente com o meu ministério. Os temas, deixei que me fossem simplesmente indicados pelas celebrações litúrgicas. O tema fundamental é que nós devemos redescobrir Deus, e não um Deus qualquer, mas o Deus com feições humanas, porque quando vemos Jesus Cristo, vemos Deus. E, a partir disso, devemos buscar os caminhos (…), caminhos que conduzem ao futuro. Não os encontraremos, se não recebermos a luz do alto.

Crer, no mundo ocidental

No mundo ocidental, vivemos hoje uma onda de novo e drástico iluminismo ou laicismo, como se queira chamar. Crer tornou-se mais difícil, uma vez que o mundo em que nos encontramos, é feito completamente por nós mesmos, e, neste mundo, Deus – se podemos assim dizer – já não comparece directamente. Já não se bebe da fonte, mas sim do recipiente em que a água nos é oferecida. Os homens reconstruíram o mundo por si mesmos, e encontrar Deus por trás deste mundo tornou-se difícil. Isso não é algo específico da Alemanha, mas sim um fenómeno que se verifica em todo o mundo, em particular no mundo ocidental. Por outro lado, o Ocidente, hoje, é tocado fortemente por outras culturas, nas quais o elemento religioso originário é muito forte, e que ficam horrorizadas pela frieza que encontram no Ocidente, no que se refere a Deus. (…)

Das profundezas do homem, no Ocidente e na Alemanha, emerge, sempre e novamente, o desejo de algo “maior”. Nós o constatamos entre a juventude, na sua contínua busca de um “algo mais”. De certa forma, o fenómeno religião – como se diz – retorna, ainda que como movimento de busca bastante indeterminado.

Jovens

Sinto-me muito feliz em saber que há jovens que querem estar juntos, que querem reunir-se na fé, e que desejam fazer algo de bom. A disponibilidade para o bem é muito forte na juventude, basta pensar nas muitas formas de voluntariado. O compromisso a oferecer, pessoalmente, uma contribuição às necessidades deste mundo, é uma coisa grande. Um primeiro impulso pode ser, portanto, o de encorajar a isso: Prossigam neste caminho! Busquem ocasiões para fazer o bem! O mundo necessita dessa vontade, necessita desse empenho! E depois, talvez, uma palavra especial poderia ser esta: a coragem das decisões definitivas! Na juventude, há muita generosidade, mas, diante do risco de comprometer-se por toda a vida, seja no matrimónio seja no sacerdócio, experimenta-se o medo. O mundo movimenta-se de modo dramático. Continuamente. Posso, desde agora, dispor de toda a minha vida, com todos os seus imprevisíveis eventos futuros? Com uma decisão definitiva, não estarei, eu mesmo, cerceando a minha liberdade e tirando algo de minha flexibilidade? Despertar a coragem de ousar decisões definitivas, que, na realidade, são as únicas que tornam o crescimento possível, que permitem ir avante e alcançar algo de grande na vida; são as únicas que não destroem a liberdade, mas lhe oferecem a justa direcção no espaço; correr esse risco, dar esse salto – se assim podemos dizer – para o definitivo e, com isso, acolher plenamente a vida: isso é algo que eu ficaria muito feliz de poder comunicar.

Primado do Papa ou colegialidade dos bispos?

Uma relação de tensão e equilíbrio naturalmente existe, e deve ser assim. Multiplicidade e unidade devem sempre e novamente encontrar a sua relação recíproca, e essa relação deve ser restabelecida, nas mutáveis situações do mundo. Hoje, temos uma nova polifonia de culturas, na qual a Europa já não é o único determinante; as comunidades cristãs dos diversos continentes estão adquirindo o seu próprio peso, as suas próprias cores. Devemos aprender, cada vez mais, essa sinergia. Para tanto, desenvolvemos diversos instrumentos: as chamadas “visitas ad Limina” dos bispos, que sempre existiram, agora são muito mais valorizadas, para que os bispos possam realmente falar com todas as instâncias da Santa Sé e também comigo. Eu falo pessoalmente com cada bispo. Já tive a oportunidade de falar com quase todos os bispos da África e com muitos dos bispos da Ásia. Agora, virão os bispos da Europa Central, da Alemanha, Suíça e, nestes encontros, nos quais Centro e Periferia se encontram, num franco intercâmbio, cresce o correcto relacionamento recíproco, numa tensão equilibrada. Temos ainda outros instrumentos, como o Sínodo e o Consistório, que agora convocarei regularmente, e que gostaria de desenvolver, nos quais – ainda que sem uma precisa ordem do dia – podemos discutir juntos, sobre os problemas actuais, e buscar soluções. Sabemos, de um lado, que o Papa não é, de facto, um monarca absoluto, mas que deve personificar a totalidade, na escuta colectiva de Cristo. A consciência da necessidade de uma instância unificadora, capaz de criar também a independência das forças políticas e garantir que as “cristandades” não se identifiquem por demais com as nacionalidades, essa consciência, justamente, indica a necessidade de tal instância superior e mais ampla, que cria unidade na integração dinâmica do todo e, por outro lado, acolhe, aceita e promove a multiplicidade; essa consciência é muito forte. Creio, por isso, que, nesse sentido, haja realmente uma adesão íntima ao ministério petrino, no desejo de desenvolvê-lo ulteriormente, de modo que responda tanto aos desígnios do Senhor quando às necessidades dos tempos.

Igreja católica e outras confissões cristãs

Devemos, na busca da unidade, entrar em diálogo e estabelecer uma colaboração. A primeira coisa a fazer, nesta sociedade, é preocuparmo-nos, todos juntos, em tornar claras as grandes orientações éticas, encontrá-las nós mesmos e traduzi-las, de modo a garantir a coesão ética da sociedade, sem a qual ela não pode realizar os fins da política, que são a justiça para todos, a boa convivência e a paz. Nesse sentido, muitas coisas já estão a ser realizadas: diante dos grandes desafios morais, já nos encontramos, há tempos, verdadeiramente unidos, em virtude do nosso comum fundamento cristão. Naturalmente, depois, trata-se de testemunhar Deus num mundo que tem dificuldades de encontrá-Lo, como já dissemos; trata-se de tornar visível o Deus com as feições humanas de Jesus Cristo, oferecendo, assim, aos homens, o acesso àquelas fontes, sem as quais a moral se esteriliza e perde as suas referências. Trata-se também, de dar a alegria, porque não estamos isolados neste mundo. Somente assim, nasce a alegria diante da grandeza do homem, que não é um produto mal acabado, da evolução, mas a imagem de Deus. (…) Se os grupos particulares procurarem não viver a fé com particularismo, mas sempre a partir de seus fundamentos mais profundos, então, ainda que talvez não cheguemos tão rapidamente às manifestações externas de unidade, amadureceremos, todavia, rumo a uma unidade interior que, se Deus quiser, um dia levará também a formas externas de unidade.

Família, casamentos homossexuais e aborto

O Cristianismo, o Catolicismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E é muito importante que evidenciemos isso novamente, porque essa consciência, hoje, desapareceu quase completamente. Tem-se ouvido falar tanto sobre o que não é permitido, que agora é preciso dizer: “Mas nós temos uma ideia positiva a propor: o homem e a mulher foram feitos um para o outro e existe uma escala – sexualidade, eros e agape, que são as dimensões do amor, e assim se forma, antes, o matrimónio como encontro repleto de felicidade, entre o homem e a mulher, e depois, a família, que garante a continuidade entre as gerações, onde se realiza a reconciliação das gerações, e onde as culturas também se podem encontrar. Antes de tudo, portanto, é importante colocar em relevo aquilo que queremos. Em segundo lugar, pode-se ver também, por que é que certas coisas nós não as queremos. É preciso reconhecer que não é uma invenção católica o facto de que o homem e a mulher sejam feitos um para o outro, a fim de que a humanidade continue a viver: todas as culturas, no fundo, sabem disso. No que se refere ao aborto, ele não entra no sexto, mas no quinto mandamento: “Não matar!”. E isso nós devemos pressupor como óbvio, reafirmando sempre que a pessoa humana tem início no seio materno e permanece pessoa humana, até ao seu último suspiro. Por isso, deve ser sempre respeitada como pessoa humana.

Técnica e valores morais

Eu creio que o verdadeiro problema da nossa situação histórica é o desequilíbrio entre o crescimento incrivelmente rápido do nosso poder técnico e a nossa capacidade moral, que não cresce proporcionalmente. Por isso, a formação da pessoa humana é a verdadeira receita, eu diria “a chave de tudo”, e esse é também o nosso caminho. Essa formação tem – em resumo – duas dimensões. Antes de mais, naturalmente, devemos aprender: adquirir o saber, a capacidade, o know-how, come se diz habitualmente; e é preciso, ao mesmo tempo, a formação do coração.

Cristãos em minoria na Europa?

Todos os bispos das outras partes do mundo dizem: “Nós temos ainda necessidade da Europa, ainda que a Europa, agora, seja apenas uma parte de um todo que é muito maior.” Nós ainda temos uma responsabilidade em relação a eles. As nossas experiências, a ciência teológica aqui desenvolvida, toda a nossa experiência litúrgica, as nossas tradições e também as experiências ecuménicas que acumulamos: tudo isso é muito importante, também para os outros continentes. Por isso, é preciso que nós, hoje, não capitulemos, dizendo: “Eis o que somos – uma minoria; procuremos, ao menos, conservar este nosso pequeno número!” Devemos, ao invés, manter vivo o nosso dinamismo, instaurar relações de intercâmbio, de maneira que, de lá, cheguem novas forças para nós. Hoje, há sacerdotes indianos e africanos na Europa e também no Canadá, onde muitos sacerdotes africanos trabalham; é interessante! Há este dar e receber recíproco. E ainda que, no futuro, venhamos a ser aqueles que recebem, mais do que dão, deveremos sempre continuar capazes de dar e de desenvolver, em tal sentido, a coragem e o dinamismo necessários.

Fé num mundo secularizado

É importante que o nosso mundo laicista se dê conta de que a fé cristã não é um impedimento, mas sim uma ponte para o diálogo com os outros mundos. Não é justo pensar que a cultura puramente racional, graças à sua tolerância, tenha uma abordagem mais fácil das outras religiões. O que lhe falta, em grande parte, é o “órgão religioso”, ou seja, o ponto de encontro a partir do qual e com o qual os outros se desejam relacionar. Por isso, devemos e podemos mostrar que, justamente pela nova interculturalidade em que vivemos, a pura racionalidade separada de Deus, não é suficiente, mas é necessária uma racionalidade mais ampla, que vê Deus em harmonia com a razão; devemos mostrar que a fé cristã que se desenvolveu na Europa é também um meio para fazer confluir razão e cultura, e para mantê-las juntas, numa unidade que compreende também o agir. Nesse sentido, creio que temos uma grande tarefa, que é a de mostrar que essa Palavra que possuímos, não pertence – se podemos assim dizer – aos entulhos inúteis da história, mas é necessária ainda hoje.

Viagens do Papa

Desde João XXIII, o pêndulo se virou noutra direcção: foram os papas que começaram a fazer visitas. Devo dizer que não me sinto em condições de agendar muitas viagens longas, mas onde houver possibilidade de dirigir uma mensagem, onde tais viagens responderem a um verdadeiro desejo, ali quero ir, com a “dosagem” que me for possível. Algumas coisas já estão previstas: no próximo ano, no Brasil, haverá o encontro do CELAM, o Conselho Episcopal Latino-Americano, e creio que, ali, a minha presença seja um factor importante, considerando, de um lado, os eventos dramáticos que a América do Sul está vivendo; e, de outro lado, toda a força da esperança que, ao mesmo tempo, é actuante naquela região. Depois, gostaria de visitar a Terra Santa, e espero poder fazê-lo em tempo de paz.

Mulheres e Igreja

Nós consideramos que a nossa fé, a constituição do Colégio dos Apóstolos, não nos permitem conferir a ordenação sacerdotal às mulheres. Mas não se pode pensar que, na Igreja, a única possibilidade de desempenhar um papel de relevo seja a de ser sacerdote. Na história da Igreja, há muitas tarefas e funções. A começar pelas irmãs dos Padres da Igreja, para chegar à Idade Média, quando grandes mulheres desempenharam um papel muito determinante, até chegar à época moderna. Pensemos em Ildegard de Bingen, que protestava fortemente contra os bispos e o Papa; em Catarina de Sena e em Brígida da Suécia. Assim, também no tempo moderno, as mulheres devem – e nós com elas – procurar, novamente, o seu justo lugar. Hoje, elas estão bem presentes, até mesmo nos Organismos da Santa Sé. Mas há um problema jurídico: o da jurisdição, isto é, o facto de que, segundo o Direito Canónico, o poder de tomar decisões juridicamente vinculadoras, estar ligado à Ordem sacra. Desse ponto de vista, há, portanto, alguns limites. Mas eu creio que as próprias mulheres, com o seu dinamismo e a sua força, com a sua preponderância e com a sua “força espiritual”, saberão conquistar o seu espaço. E nós devemos colocar-nos na escuta de Deus, para não sermos nós a opormo-nos a Ele, mas, pelo contrário, a alegrarmo-nos pelo facto de o elemento feminino alcançar, na Igreja, o lugar operativo que lhe cabe, a começar pela Mãe de Deus e Maria Madalena.

Mais selecção nas canonizações e beatificações?

No início, eu também tinha a ideia de que a grande quantidade de beatificações quase nos esmagava, e que talvez houvesse necessidade de escolher um pouco mais: figuras que entrassem mais claramente na nossa consciência. Nesse meio tempo, descentralizei as beatificações, para tornar cada vez mais visíveis essas figuras, nos lugares específicos aos quais pertencem. Talvez um santo da Guatemala interesse menos a nós, na Alemanha, e vice-versa, um de Altötting não encontre tanto interesse em Los Angeles, e assim por diante. Nesse sentido, creio que essa descentralização, que corresponde também à colegialidade do episcopado e às suas estruturas colegiais, seja uma coisa oportuna, exactamente por isso. Os diversos países têm as suas próprias figuras, que ali podem desempenhar a sua eficácia. Observei também que essas beatificações nos diversos lugares tocam numerosas pessoas e que o povo comenta: “Finalmente, este é um de nós!” e recorre a ele e nele se inspira. O bem-aventurado pertence a eles, e ficamos contentes que ali haja muitos. E se, gradualmente, com o desenvolvimento da sociedade mundial, também nós os conhecermos melhor, será bonito. Mas, antes de tudo, é importante que, também nesse campo, haja multiplicidade. Nesse sentido, é importante que também nós, na Alemanha, aprendamos a conhecer as nossas próprias figuras e sejamos orgulhosos delas. Paralelamente, existem as canonizações das figuras maiores, que são de relevo para toda a Igreja. Eu creio que as Conferências Episcopais deveriam escolher, deveriam ver quem é apropriado a nós, quem nos diz realmente, alguma coisa; e, depois, deveriam tornar mais visíveis essas figuras mais significativas, imprimindo-as na consciência, por meio da catequese e da pregação; talvez se pudesse até mesmo apresentá-las com um filme.

Humor

Eu não sou um homem ao qual venham à mente, continuamente, piadas. Todavia, saber ver o aspecto divertido da vida e a sua dimensão alegre, e não levar tudo tragicamente, é muito importante, e diria que é até necessário para o meu ministério. Um escritor já disse que os anjos podem voar, porque não levam as coisas tão a sério. Talvez também nós pudéssemos voar um pouco mais, se não déssemos tanta importância.

Bento diferente de Ratzinger?

Eu já fui dividido diversas vezes: o professor do primeiro período e o do período intermediário, o primeiro Cardeal e o seguinte. Agora, acrescenta-se outra dissecação. Naturalmente, as circunstâncias e a situação, e também os homens, influem, porque desempenham responsabilidades diversas. Mas – digamos – a minha personalidade fundamental e também a minha visão fundamental cresceram, mas, em tudo o que é essencial, permanecem idênticas. Fico feliz pelo facto de, agora, serem percebidos também aspectos que antes não eram tão notados.