“O voluntariado português cura as feridas de um passado colonial”

Três perguntas a Pe Marcelo Siabatti. Missionário salesiano em Angola, onde tem recedido jovens de Aveiro Marcelo Siabatti, 43 anos, missionário salesiano argentino, vive em Angola há 15 anos. De passagem por Lisboa, deu um salto a Aveiro, para agradecer à diocese os jovens que nos últimos sete anos têm feito experiências missionárias no país africano.

O voluntariado é importante para os jovens?

É importante que os jovens tenham essa experiência. É uma fase da vida. Não se vive voluntário toda a vida. Mas é uma fase muito importante, na qual alguém se dedica aos outros.

O mundo do voluntariado é um mundo maravilhoso. Os jovens, conscientes das suas capacidades e qualidades, podem contribuir para fazer o bem gratuitamentre. Recebeu da família, da pátria, da Igreja… e põe-se ao serviço dos outros, partilhando o que tem.

Vivo num bairro difícil, onde não há brancos, para o qual os próprios angolanos olham com desconfiança. Mas sentimo-nos muito amados nesse bairro. A presença de jovens voluntários de Espanha, Itália, Brasil, Argentina e Portugal está a mostrar que este bairro de risco é capaz de acolher qualquer pessoa de qualquer parte do mundo. Confiam os filhos, para brincar, e isso, por exemplo, quebra barreiras e preconceitos que os homens foram impondo.

Um mês de experiência missionária é suficiente?

O contributo de um mês é muito pouco, mas os jovens partilham de um trabalho que já existe, regando, continuando a acompanhar. Mas esta experiência de um mês faz parte de um percurso formativo, aqui em Aveiro, onde os jovens, reunindo-se periodicamente, se abrem à “mundialidade”, aos problemas dos outros. Este período de um mês, que poderia ser passado na neve, no mar, dá aos jovens a capacidade de se porem ao serviço dos outros. O ideal é que depois desta experiência, possam também fazer a experiência de um, dois ou três anos de voluntariado. Alguns já estão a começar. Seria uma experiência mais rica e completa.

Num mês, como trabalhamos com a juventude e a criançada, eles fazem actividades de tempo livre, reforço escolar, apoiam diversos serviços da missão, partilham nos grupos juvenis, apoiam na informática e no inglês, enfim, fazem tudo o que está ao alcance deles.

Tem algum significado especial o voluntariado de portugueses em Angola?

Tenho visto como o testemunho de jovens portugueses cura as feridas de um passado colonial. Muitos angolanos ainda manifestam a dor do tempo colonial. O testemunho de alguém que partilha a vida com humildade com as crianças cura um conjunto de preconceitos, que são transmitidos de geração em geração. O testemunho de ter convivido com portugueses noutras situações, muito positivas, ajuda a curar feridas do passado.

É uma experiência rica da humanidade e que une os povos. Se mais jovens de Portugal se põem ao serviço de outras partes do mundo, podem mostrar outro aspecto do coração do português, capaz de ser solidário, capaz de ser irmão, de dar uma mão.