Pais que mimam de mais são maus pais

Livro Dizer que os pais mimam de mais os seus filhos pode parecer uma afirmação de alguém apegado à educação tradicional, baseada na autoridade, disciplina e exigência. Mas dizê-lo depois em 300 páginas recheadas de exemplos, estudos e casos, já não transmite uma imagem de retrocesso ou conservadorismo.

Durante séculos e séculos, a violência física fez parte dos métodos educativos. Basta lembrar um preceito bíblico de entre muitos possíveis: “A vara e a correcção dão sabedoria; mas o jovem abandonado à sua vontade é a vergonha da sua mãe” (Provérbios 29,15). Depois passou-se para o extremo oposto. Da educação desapareceu a violência (ainda bem!) e, com ela, a autoridade (ainda mal). E o que ficou? Ficaram pais que não sabem estabelecer limites nem impor disciplina, pais que não sabem dizer “não”, porque pensam que “por levantarem a mão ou até a voz para um filho correm o risco de fracassar miseravelmente como pais e de destruir a criança”. Ficaram filhos que – é um caso – aos doze anos contratam advogados para levar os pais a tribunal…

Mas não é esse o único problema dos pais que mimam de mais. Há o “complexo de Tarza num liana”, isto é, pais que balançam desvairadamente entre o nunca estar suficientemente presente (por causa da carreira, por exemplo) e o estar demasiado presente. E pais obcecados com o sucesso dos filhos: contratam explicadores de matemática e de leitura, para crianças de quatro anos; consultam o psicólogo sobre qual a melhor pré-primária para o filho de um ano; estudam toda a noite com os filhos para o teste; enfim, foram apanhados pela “epidemia de ansiedade parental crónica na busca da perfeição”.

Outro dos mimos prejudiciais para as crianças é a constante preocupação com a auto-estima, especialmente presente no ensino: “Queremos eliminar quaisquer sentimentos negativos que as pessoas possam ter relativamente ao nível do seu desempenho, independentemente desse desempenho”. E surgem assim os “reforços positivos”, como aplausos por palavras ditas, a medalha por ir a um acampamento, uma estrela por ter participado num trabalho escolar… Acontece que as crianças não são parvas. E, quando “todos os acontecimentos não importantes se tornam no equivalente a escalar o Evereste”, ela percebe que está diante de uma farsa, e os elogios, em vez de aumentarem, diminuem a noção das suas próprias proezas.

Consequência dos pais que mimam de mais e da obsessão com o sucesso dos filhos (porque “os nossos filhos são os mais espertos, os mais bonitos, os mais extraordinários do mundo inteiro”) é o desaparecimento da brincadeira, a verda-deira profissão das crianças. Inscritas em todas as actividades possíveis e imaginárias, não resta tempo para ser criança. “Brincas com a Barbie?” – pergunta uma mãe à amiga da filha. “Oh, não, ando demasiado ocupada para brincar com a Barbie” – responde a menina de seis anos. Conclui a autora: “Valorizamos muitíssimo a felicidade como sendo um objectivo para os nosso filhos, mas perdemos de vista os ingredientes que criam essa felicidade”.

“Pais que mimam de mais” reflecte em primeiro lugar a realidade norte-americana, mas não está muito distante da realidade portuguesa. O horário superpreenchido das crianças, a preocupação pela segurança (que faz a criança andar de adulto em adulto, de mão em mão), a transferência da ansiedade dos pais para os filhos (na abertura das aulas, por exemplo), o quarto dos brinquedos (além do quarto normal, já igualmente cheio de brinquedos), os “pequenos dita-dores”… são tudo situações facilmente identificáveis nos nossos meios.

Muitos pais, temendo que a opção por uma educação com disciplina e autoridade (e não violência) seja catalogada como “tradicionalista”, têm aqui uma óptima justificação. São mais avançados do que os que mimam de mais.

J.P.F.

Pais que mimam de mais

Diane Ehrensaft

Lua de Papel

320 páginas