“Muçulmano mas honesto”

Colaboração dos Leitores Como emigrante português, há muito que vivo entre as mais diversas culturas, nacionalidades e religiões.

Eu próprio resultado do encontro de duas religiões, o judaísmo reformista, por parte do meu pai, e o catolicismo, por parte da minha mãe.

Necessariamente, das duas fés religiosas recebi muito para ser o que penso ser — um judeu messiânico/católico.

O judaísmo messiânico, fortemente implantado no Reino Unido e nos Estados Unidos da América, poderá defenir-se como “a religião dos judeus que acreditam em Jesus como o Messias de Israel, o Cristo para o mundo”, e “a forma de cristianismo que parte à procura das suas raízes judaicas na Torah, ou seja os primeiros cinco livros do Velho Testamento”.

Não vou abordar hoje e agora o judaísmo messiânico, nem sou a pessoa com conhecimentos teológicos para tal.

Mas julgo ser judeu messiânico e católico, nunca esquecendo o Papa João Paulo II, que considero a ponte entre as duas religiões, ao chamar Deus ao entendimento entre as civilizações.

Mas, diariamente, lido, por razões profissionais ou de vizinhança com muçulmanos, ou seja, aderentes convictos da fé islâmica.

Trago à vossa reflexão a passagem de uma conversa com o meu vizinho Abdull.

Perguntei-lhe porque é que os muçulmanos queriam fazer da Inglaterra (onde vivemos) um estado islâmico, tal como pretendem fazer o mesmo em todas as nações onde vivem e onde quer que estejam.

Abdull, o meu vizinho e colega de trebalho, colocou o seu braço no meu ombro e respondeu-me.

“Porque será que vós cristãos e judeus pedis a Deus, diária e repetidamente, em oração, o — Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade, aqui na terra — mas, ao mesmo tempo, quereis que não haja ligação entre Religião e Estado, não haja aulas de Religião e Moral nas escolas, que se liberalize o consumo das drogas com salas de chuto, liberalize o aborto, e aceitais o vacum de valores morais na sociedade?”

É verdade que não consegui responder.

Fiquei a reflectir e, se entenderem por bem, façam também uma reflexão.

Resta-me dizer que julgo ser o meu vizinho Abdull, pelo menos, honesto e sincero com os princípios religiosos que professa, mesmo que esses não sejam os meus.

Manuel Cristiano

(emigrante no Reino Unido)