Bispos de Aveiro

Até à entrada de D. António Francisco dos Santos, no dia 8 de Dezembro, o Correio do Vouga recorda os bispos que estiveram à frente da Diocese de Aveiro. Nesta edição, ficamos a conhecer os três bispos da primeira fase da vida da diocese, entre a criação, em 1774, e a extinção, em 1882. Foram eles: D. António Feire Gameiro de Sousa, D. António José Cordeiro, e D. Manuel Pacheco de Resende.

D. António Freire Gameiro de Sousa

Bispo de Aveiro de 1774 a 1799

D. António Freire Gameiro de Sousa foi confirmado pelo Papa como Bispo de Aveiro no dia 18 de Abril de 1774, seis dias após a erecção do bispado. Não foi a primeira opção para Aveiro (nesse tempo, o poder político propunha os bispos e o Papa confirmava). O Marquês de Pombal preferia D. Frei Lourenço de Santa Maria, natural de Avelãs de Cima (Anadia) e bispo do Algarve. Esperava que a sua vinda para perto de casa deixasse o caminho livre para desmembrar a diocese do Algarve, mas D. Frei Lourenço não cedeu. Pombal virou-se então para o Dr. António Freire Gameiro de Sousa, de 46 anos.

O primeiro Bispo de Aveiro nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1727, em Lisboa. Estudou na Universidade de Coimbra, doutorou-se em Direito e aí exerceu a docência. Na altura da nomeação para Aveiro, presidia ao cabido da Sé de Lamego e possuía o beneficio da igreja de S. Martinho de Cambres, da mesma diocese. Foi ordenado bispo no dia 25 de Setembro de 1774, em Lisboa, por D. João Cosme da Cunha (arcebispo de Évora) e tomou posse da diocese, por procuração, no dia 24 de Março de 1775.

D. António Freire Gameiro de Sousa, quando veio para a diocese (apenas no dia 1 de Julho de 1778), ficou a residir no palácio dos Tavares (demolido após o incêndio de 1864), junto ao Canal Central, onde hoje está uma dependência bancária e uma loja de desporto. Por detrás do Paço Episcopal, onde está actualmente a estátua de José Estêvão, ficava a igreja de S Miguel, de uma das quatro paróquias da cidade (as outras eram a da Apresentação – na zona da capela de S. Gonçalo –, a da Vera Cruz, e a do Espírito Santo, que integrava, entre outros, os lugares de Vilar, S. Bernardo e Quinta do Gato).

A Diocese de Aveiro adoptou para seu governo as mesmas constituições e pastorais de Coimbra e transformou a Igreja da Misericórdia em Sé Catedral.

Da acção do primeiro Bispo de Aveiro destaca-se o apoio ao conservatório de S. Bernardino, uma casa de religiosas franciscanas que ficava onde hoje está o Tribunal de Aveiro, e a ordem de realização de um inquérito às 71 paróquias que constituíam o bispado. Tal inquérito, feito a pedido de um cardeal protegido de Pombal, revela-se um documento interessantíssimo para conhecer os santos titulares das paróquias, os párocos, os rendimentos ou o número de fogos, entre outros elementos.

O primeiro Bispo de Aveiro morreu em 1799. Está sepultado na Igreja da Misericórdia.

D. António José Cordeiro

Bispo de Aveiro de 1801 e 1813

A acção de D. António José Cordeiro, segundo Bispo de Aveiro, teve duas fases distintas. Primeiro mostrou-se “um bispo disciplinador”; depois, sofreu o embate das invasões napoleónicas, que, embora não passassem por Aveiro – fora das grandes vias –, também aqui fizeram sentir os seus efeitos. Recorde-se que em 1808 o general Junot ordenou a entrega do ouro e prata das igrejas, capelas e confrarias e, nos edifícios, os escudos reais foram picados. Em Aveiro, salvou-se apenas o do Mosteiro de Jesus, porque a prioresa o cobriu com argamassa.

Natural de Coimbra (1750), doutor em Direito Canónico, ordenou-se padre em 1773 e foi confirmado como Bispo de Aveiro por Pio VII, em 1801, depois de apresentado pelo Príncipe D. João, regente de D.ª Maria I. No dia 8 de Novembro de 1801, foi feito bispo na Catedral de Lamego, onde era cónego.

Mons. João Gaspar caracteriza o segundo Bispo de Aveiro como “figura erudita, máscula, enérgica e disciplinadora”. Esta última faceta revela-se nas sucessivas pastorais dirigidas aos párocos. A de 24 de Março de 1802 é particularmente significativa. Em 105 parágrafos (53 páginas na edição de maior formato), o prelado cita de modo abundante a Bíblia (238 citações), concílios e padres da Igreja, como Gregório Magno ou Agostinho. A título de exemplo, o bispo recorda a necessidade de os párocos não apenas doutrinarem o povo com palavras, mas sobretudo com o exemplo duma vida irrepreensível, e lembra os deveres dos pais: a educação cristã dos filhos, pelo exemplo quotidiano, pelos conselhos e instruções frequentes, pelo cuidado em enviá-los aos párocos e à catequese, pela correcção paternal e caritativa. A missão dos pais – defende D. António – é preparar cidadãos para a Igreja e para o Céu e homens úteis à pátria e à sociedade. Esta pastoral serviu de inspiração a muitos bispos nos anos seguintes.

D. António instituiu o Seminário em Requeixo e, a seguir, no próprio Paço Episcopal, sustentando professores e discípulos. (No tempo do primeiro bispo, a formação para as ordens eclesiásticas funcionara na Vista Alegre e em casas alugadas em Aveiro.) Distinguiu-se ainda pela caridade (entre 1806 e 1810 gastou mais de dois milhões de réis em remédios para os pobres) e pela erudição, tendo escrito obras de Teologia, Matemática e Medicina, que ficaram inéditas e foram devoradas pelo fogo de 1864. Faleceu no dia 17 de Julho de 1813 e foi sepultado na Igreja da Misericórdia.

D. Manuel Pacheco de Resende

Bispo de Aveiro de 1815 a 1837

O terceiro bispo de Aveiro nasceu em Coimbra, em 1750, foi ordenado padre em 1772 e era doutorado em Teologia, exercendo por diversas vezes o cargo de vice-reitor da Universidade de Coimbra. Em 1813, D. João, príncipe regente, apresentou-o a Pio VII e este confirmou-o como bispo de Aveiro, no dia 4 de Setembro de 1815. No dia 19 de Novembro seguinte, D. Manuel seria ordenado bispo.

Em Aveiro, D. Manuel Pacheco de Resende “foi sábio e justo; compreendeu os deveres do episcopado; foi verdadeiro apóstolo das doutrinas de Cristo; não era um bispo grande, mas um grande bispo, porque foi grande pela sua abnegação e caridade”, segundo escreveu Rangel de Quadros, citado por Mons. João Gaspar.

Deste bispo conhecem-se testemunhos das suas visitas pastorais, mas o que marcou o seu ministério foram as “lutas liberais” entre os liberais ou constituintes (adeptos da Carta constitucional), chefiados por D. Pedro, e os absolutistas ou realistas, liderados por D. Miguel. Até à convenção de Évora-Monte, que marcou a derrota dos miguelistas, em 1834, o país viveu em convulsão e o bispo de Aveiro balançou entre as duas facções, prescrevendo que os padres, na colecta da Missa, ora rezassem pelo “Regem Nostrum Michaelem”, ora pelo “Regentem Nostrum Petrum”. No entanto, dele escreveu Homem Christo que, “durante o predomínio dos miguelistas, deu aos constitucionais perseguidos todo o seu auxílio, e, durante o predomínio dos constitucionais, fez o mesmo aos miguelistas”.

Com D. Manuel, a Sé foi transferida da Igreja da Misericórdia para o recolhimento de S. Bernardino (que existia onde hoje está o Tribunal de Aveiro), em 1830, talvez devido a desaguisados com a Santa Casa da Misericórdia, e deu-se a proibição de sepultar os defuntos no interior das igrejas, em 1835. Nesse mesmo ano, as quatro paróquias da cidade seriam reduzidas a duas: a Vera Cruz, a norte do Canal central, e a Glória (“talvez para honrar a rainha D. Maria da Glória”), no lado meridional. A igreja de S. Miguel, que tinha contra ela o nome do rei proscrito, foi mandada demolir após a extinção da freguesia. Os habitantes de Aveiro mostraram-se contrários à demolição da matriz, pelo que foi necessário mandar vir das obras da Barra os presos que lá cumpriam sentença de condenados a trabalhos públicos.

Coube a D. Manuel Pacheco de Resende suportar o embate da ex-tinção das ordens religiosas masculinas e a nacionalização dos seus bens, por decreto do ministro da justiça, Joaquim António de Aguiar, conhecido por “Mata-Frades”, em 1834.

O terceiro Bispo de Aveiro faleceu no dia 17 de Fevereiro de 1937 e foi sepultado na igreja do conservatório de S. Bernardino. Mais tarde, os seus restos mortais seriam trasladados para o Cemitério Central de Aveiro.

Após a morte deste bispo, ainda o governo nomeou Frei António de Santo Ilídio da Fonseca e Silva, que nunca foi confirmado pelo Papa. Até à extinção da diocese, em 1882, a diocese de Aveiro estaria dependente de administradores apostólicos nomeados pela arquidiocese de Braga.

Pombal cria Aveiro para enfraquecer Coimbra

A criação da diocese de Aveiro surge poucos anos após a elevação da vila a cidade. Na altura, ocupava o trono de Portugal D. José I e era secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo, que ficaria na história como Marquês de Pombal.

A causa próxima da criação da cidade foi o protesto do povo aveirense contra a implicação de D. José Mascarenhas, Duque de Aveiro, no atentado contra o rei, em Dezembro de 1758. “O Monarca mostrou-se sensível e agradecido perante esta atitude de repulsa e a Vila de Aveiro, embora tivesse diminuído em população para menos de metade da que possuía em quinhentos, reunia condições para ostentar o título de cidade”, escreve Mons. João Gaspar, no volume fundamental “A Diocese de Aveiro”. Depois do título de cidade foi criada a comarca (até então em Esgueira), em 1760, e a seguir a sede episcopal, na povoação que era já centro de piedade à volta do túmulo de Santa Joana.

A criação da diocese, podendo corresponder à vontade popular, servia essencialmente o intuito de fortalecimento do poder de Sebastião José de Carvalho e Melo, segundo a lógica “dividir para reinar”. Como a diocese a criar era constituída integralmente por territórios retirados a Coimbra, esta e principalmente os jesuítas, que nela tinham influência, ficavam enfraquecidos.

A diocese é criada no dia 12 de Abril de 1774, pelo breve “Militantis Ecclesiae gubernacula”, do Papa Clemente XIV, numa altura em que D. Miguel da Anunciação, Bispo de Coimbra, está preso, vítima do despotismo pombalino. O bispo condenara alguns livros que circulavam na universidade conimbricense e isso fora entendido como uma intromissão na autoridade régia. O Marquês considerou D. Miguel da Anunciação um joguete nas mãos dos jesuítas e mandou-o prender. O Bispo de Coimbra esteve no cárcere de 1768 e 1777. Enquanto isso, era criada a diocese de Aveiro.

Território da diocese

na sua primeira fase

Actualmente, em termos de território, a diocese de Aveiro compreende os concelhos de Murtosa, Estarreja, Albergaria-a-Velha, Sever do Vouga, Aveiro, Águeda, Ílhavo, Vagos, Oliveira do Bairro e Anadia, os mesmos dez de quando foi restaurada, em 1938.

Entre 1774 e 1882, a geografia era diferente. O território da diocese de Aveiro, retirado na sua totalidade à diocese de Coimbra, em relação ao actual, integrava o concelho de Mira, a sul, e parte dos actuais concelhos de Oliveira de Azeméis e de Vale de Cambra, a norte. Mas a Murtosa não fazia parte da diocese de Aveiro, nem as freguesias de Veiros, Pardilhó, Avanca e Beduído (concelho de Estarreja). A norte do rio Antuã estava-se na diocese do Porto. Do concelho de Sever do Vouga, somente Talhadas integrava a diocese. No sul, Mogofores, Tamengos e Vila Nova de Monsarros (Anadia) continuavam na diocese de Coimbra.

Quando a diocese foi extinta, em 1882, Talhadas (Sever do Vouga) passou a pertencer à diocese de Viseu, enquanto Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra, Albergaria-a-Velha e as freguesias de Canelas, Fermelã e Salreu (Estarreja) passaram para o Porto. O restante território regressou a Coimbra. Com pequenas excepções, o rio Vouga passou a marcar a fronteira entre as dioceses do Porto e de Coimbra.

Principais datas

1759 – A vila de Aveiro é elevada a cidade.

1760 – Criação da Comarca de Aveiro.

1773 – 28 de Setembro. Carta de D. José I a Clemente XIV, pedindo a criação da diocese de Aveiro.

1774 – 12 de Abril. Clemente XIV emite o breve “Militantis Ecclesiae gubernacula”, que cria o Bispado de Aveiro.

1830 – A Igreja do conservatório de S. Bernardino (destruído em meados do séc. XX, para dar lugar ao Palácio da Justiça), passa a ser a Sé de Aveiro, até à extinção da Diocese.

1835 – Criação do Distrito de Aveiro.

1881 – 30 de Setembro. Bula “Gravissimum Christi Ecclesiam regendi et gubernandi munus”, de Leão XII, que suprime as dioceses de Aveiro, Castelo Branco, Elvas, Leiria e Pinhel.

1882 – 4 de Setembro. Cardeal D. Américo Ferreira dos Santos Silva, bispo do Porto, assina a sentença executorial que extingue as dioceses referidas. Estas supressões enquadram-se no plano dos governos liberais de redução dos bispados no continente.

Textos elaborados por Jorge Pires Ferreira, com base nas obras “A Diocese de Aveiro – Subsídios para a sua História” e “A Diocese de Aveiro no séc. XVIII – Um inquérito de 22 de Setembro de 1775”, ambas de Monsenhor João Gaspar.