Questões Sociais Na quadra quaresmal, somos convidados a uma conversão profunda que, naturalmente, podemos desdobrar em várias conversões parcelares. Para o laicado católico, uma destas conversões poderia respeitar à tentativa de convergência dos seus diferentes «evangelhos». É sadio que cada leigo, tal como os demais cristãos, tenha a sua leitura e vivência pessoais do Evangelho; e é também sadio que todos procurem viver e apreender a revelação que ele contém.
Os motivos de perplexidade surgem quando, alegadamente em nome do Evangelho, se defendem posicionamentos contrários e, porventura, incompatíveis. Tais motivos tornam-se mais preocupantes quando os protagonistas desses posicionamentos não dialogam entre si; e, pior ainda, quando reconhecem que o diálogo entre eles não é possível. Uma boa parte dos leigos mais vincadamente «de esquerda» e de «direita» funciona como se a comunhão fraterna não implicasse a procura do entendimento possível na «construção do Reino», a partir das «realidades terrestres». Uns e outros parecem esperar que a plenitude eterna seja a confirmação plena do «seu evangelho», em detrimento do «evangelho» adversário. Actuam à semelhança dos militantes da «luta de classes», ansiando pela «vitória final» das suas opções.
Ao contrário desta orientação, o mínimo recomendável seria que todos fizessem (fizéssemos) um sério exame de consciência, e ponderassem a hipótese de encetar diálogos sistemáticos, em ordem a uma sociedade mais justa e fraterna. Estes diálogos poderiam fundamentar melhor as posições diferenciadas nos diferentes partidos, associações sindicais e patronais, empresas e outras estruturas onde os leigos se encontram inseridos. Com base nos mesmos diálogos: seriam respeitadas a situação e opções de cada um, sem se forjarem consensos artificiais; aprofundar-se-iam-se os valores e princípios comuns; e diligenciar-se-ia caminhar para a mesma finalidade última, no tempo e na eternidade, por itinerários diferentes. Muitas vezes, seria impossível chegar a acordo. Isso, porém, não justificaria qualquer alarmismo; pelo contrário, reforçaria a comunhão plural, e tornaria mais clara a distinção entre a transcendência da fé e a contingência das nossas caminhadas. Seria, assim, a partir da conversão pessoal e do diálogo no interior da Igreja, que os leigos cumpririam a sua missão no mundo (cf. «Apostolicam Actuositatem», nº. 5, e «Christifideles Laici», nº. 15).
