Ainda recordado por muitos como “o Senhor Arcebispo”, D. João Evangelista assumiu o desejo dos que queriam a restauração da Diocese e liderou de forma notável a Igreja de Aveiro durante duas décadas.
D. João Evangelista morreu no dia 5 de Janeiro de 1958, no Hospital da Misericórdia de Aveiro. O Correio do Vouga classificou-o como “um dos grandes Bispos do nosso século” (CV, 15-02-1959) e com essas palavras exprimiu muitos mais sentimentos do que os dos aveirenses, como atesta o percurso do “senhor arcebispo”.
João Evangelista de Lima Vidal nasceu no dia 2 de Abril de 1874, em Aveiro, numa casa da Rua do Gravito, devidamente assinalada com uma lápide. Depois de estudar no Seminário de Coimbra, vai para Roma com apenas 16 anos. Na cidade eterna é colega de Eugénio Pacelli (Pio XII) e torna-se doutor em Filosofia e Teologia e bacharel em Direito Canónico. É ordenado padre em Coimbra, por D. Manuel Correia Bastos de Pina, no dia 19 de Dezembro de 1896, no velho paço episcopal. Nessa cidade, o Pe João Evangelista é professor do Seminário, director espiritual e cónego da Sé, por decreto régio de D. Carlos.
Em 1909, é nomeado Bispo de Angola e Congo e ordenado bispo na Sé de Coimbra. Ainda nesse ano, parte para Angola. No ano seguinte, inicia em Cabinda uma visita pastoral que duraria todo um ano. Em 1914, regressa a Portugal e faz sentir às autoridades a necessidade de abrir um seminário para formar o clero destinado às missões. Esse desejo, de alguma forma será realizado na Sociedade Missionária Boa Nova (“Missionários de Cucujães”), criada em 1930, e de que D. João Evangelista será primeiro superior-geral.
Em 1915, é designado arcebispo de Mitilene, por ter sido convidado pelo Cardeal Patriarca D. António Mendes Belo para vigário geral de Lisboa. Em 1923, deixa a capital de Portugal, onde ainda principiou o inquérito sobre as aparições de Fátima (a diocese de Leira ainda não estava restaurada), para ser bispo de Vila Real, onde visitou todas as freguesias e iniciou a construção do Seminário. Nesta diocese, criou as “Florinhas da Neve”, como já tinha criado em Lisboa as “Florinhas da Rua” e viria a criar em Aveiro as “Florinhas do Vouga”. Pio XI nomeou-o, em 1930, superior da Sociedade Portuguesa das Missões Católicas Ultramarinas.
Entretanto, conforme relata no seu diário, na entrada de 28 de Abril de 1928, “no regresso [de ter rezado ao pé do túmulo de Santa Joana], ao passar junto do largo municipal, pararam perto de mim duas pessoas que se interessam pela criação da Diocese e, daí a pouco, o grupo engrossou até dar nas vistas. O que eles queriam! Queriam que eu trabalhasse para a criação da Diocese, queriam depois que eu fosse bispo de Aveiro! Valha-me Nossa Senhora! A minha esposa, a pobrezinha de Vila Real, onde eu tenho tido dores tão atrozes e tão profundas conso-lações, eu deixava-a lá por coisa nenhuma do mundo! E depois, ó corações superficiais, vós nunca ouvistes dizer que ninguém é profeta na sua terra?! E um deles não me deixava, enquanto o carro não abalou. E pela estrada fora, cortado de frio, a minha alma chorava e sorria”.
Sem se invocar agora as razões que levaram à restauração da Diocese de Aveiro, tal veio a acontecer no dia 11 de Dezembro de 1938, sendo administrador apostólico precisamente o bispo natural da cidade da Ria.
Como Bispo de Aveiro (a partir de 12 de Janeiro de 1940), D. João “tornou-se o apóstolo incansável da construção do Seminário de Santa Joana Princesa [inaugurado a 14 de Novembro de 1951], fomentou o culto da Padroeira de Aveiro, fundou as Florinhas do Vouga para acolhimento de crianças pobres, realizou cinco congressos eucarísticos em anos seguidos, a partir de 1940; reuniu o Sínodo diocesano a 21 de Maio de 1944 (…); presidiu a peregrinações e promoveu, em 1951, uma triunfal jornada da imagem de Nossa Senhora de Fátima através de todas as freguesias, além das visitas pastorais que fez em toda a Diocese” (Mons. João Gaspar in “A Diocese de Aveiro”). O arcebispo escreveu ainda as pastorais sobre o Seminário (1918, 1952 e 1954), a catequese (1953) e a Virgem Peregrina (1957). Tratou-se de “erguer uma diocese, de dar coesão a parcelas provindas das dioceses limítrofes (Porto, Viseu e Coimbra) e de a dotar com estruturas sólidas e funcionais”, resume Georgino Rocha.
D. João Evangelista de Lima Vidal tinha “alma de artista” e grande sensibilidade literária. Não é possível ter uma ideia acertada de Aveiro na primeira metade do séc. XX sem ler os seus textos, recolhidos por Mons. João Gaspar em “Últimas páginas” (1969), “Aveiro, suas gentes, terras e costumes” (1967) ou “A Alma e a Pena do Arcebispo” (1977).
Palavras de D. João sobre o Seminário
“A vida dum bispo é uma vida difícil e cheia de inquietações e de responsabilidades em todos os lugares e em todos os tempos; mas estou certo de que ela não tem nada de mais cruel e de mais pungente do que este agonia de não haver sacerdotes em número suficiente para o ministério das almas”.
Correio do Vouga, 18-03-1939
Como se pôde amontoar esta soma [o dinheiro necessário para ampliação das instalações do primeiro seminário, que ficava no início da Av. Artur Ravara, junto ao Parque], ao lado de outras enormes que já foram gastas? Fui eu, é verdade, o primeiro a despir-me; a Diocese nunca poderá dizer que o seu pastor, conservando-se quentinho no seu abafo, só arranca a lã das suas ovelhas para a gola do Seminário; não, a sua própria lã, a sua própria pele, já lá vão desde os primeiros dias da sua guarda.
Carta aos Padres, 07-10-1939
Eis o meu pensamento; que não haja ninguém, na Diocese (eu ia quase a dizer mesmo: – ainda que seja pagão desde os pés até à cabeça, ainda que seja a triste flor da valeta), ou tão velho que adormeça por assim dizer à beira da cova, ou botão de rosa que comece a desabrochar à luz do sol e a todos os perfumes da natureza, que não haja ninguém, desde o pequenito gravoche que anda por aí só com uma alça nas calças e com os pezitos na lama, até ao fidalguinho a quem não falta nada na sua casa e fora dela, aos amimados da sorte, desde aquele que não sabe onde arrecadar os seus dinheiros para os livrar dos ladrões ou da tinha, até àqueles que têm por único cofre, sempre vazio, o bolso da calças, ninguém, absolutamente ninguém, se deve considerar desobrigado de contribuir, ainda que não seja senão com um grão de areia colhido à beira do nosso Vouga, para a construção do Seminário. Eu quereria que todos, ao passarem por lá, dissessem de fronte erguida, com uma espécie de orgulho celeste: – Eu também dei. Se procurarem bem, lá encontrarão um bocado de pedra, que fui eu que a dei – sabeis? – fui eu que a dei. Lá está a minha assinatura, que só Deus sabe ler.
In Pastoral sobre o Seminário
Desde o princípio, desde que senti no peito o gume que o feriu, logo começou a correr pelas minhas vestes de sacerdote a onda vermelha da imolação, e quando mais tarde, no banco [do Hospital] de S. José, descobri (…) mais feridas, mais sangue, Tu ouviste, ó Senhor, o murmúrio da minha alma: se ele é preciso, este sangue, para a Diocese, para o Seminário, deixa-o correr, eu dou-o todo; para que mais o havia de querer eu?
CV, 08-02-1941. Relato sobre o atentado que D. João sofreu na Sociedade de Geografia, em Lisboa, no dia 11 de Novembro de 1940. Amadeu Ferreira da Piedade, com uma faca, golpeia o arcebispo no lado esquerdo do peito. Julga-se que o criminoso actuava a mando de terceiros, mas nunca tal veio a ser esclarecido.
