O Bispo que teve por lema “como bom soldado de Cristo” esgotou as suas forças, literalmente, no campo pastoral. Esteve sete anos em Aveiro, apenas quatro como Bispo residencial.
O início e o fim do ministério de D. Domingos da Apresentação Fernandes, enquanto Bispo de Aveiro, foram marcados pelo imprevisto. Preparava-se a diocese para o receber festivamente, quando morre Pio XII, no dia 9 de Outubro. A festa que estava marcada para 19 de Outubro de 1958 converteu-se, nesse dia e no seguinte, em exéquias solenes pelo Papa falecido. Foi a primeira cerimónia a que D. Domingos presidiu na Sé de Aveiro como Pastor da diocese. O fim do seu ministério ficaria marcado pela morte repentina, às 0h15 do dia 21 de Janeiro de 1962, após uma extenuante visita pastoral.
Natural de São João do Souto, cidade de Braga, Domingos da Apresentação Fernandes nasceu no dia 3 de Maio de 1894 e entrou no Seminário depois de concluído o Liceu, algo pouco comum para a época. Na génese da sua vocação, apesar da relutância do pai, como ele próprio conta, está a revolta “perante tantos vitupérios e tantas blasfémias contra as verdades da Igreja” do anticlericalismo dos inícios da República. O lema escolhido para as armas episcopais não será alheio a este espírito.
Foi ordenado padre em 1918 e nomeado Bispo Auxiliar de Aveiro em Dezembro de 1952. A ordenação episcopal realizou-se na Sé de Aveiro, no dia 19 de Março de 1953, presidida por D. João Evangelista.
Até vir para Aveiro, o Pe Domingos trabalhou em várias paróquias da arquidiocese de Braga e, a partir de 1937, foi assistente nacional de movimentos da Acção Católica, que na altura tinham uma expansão ímpar, chegando a Secretário Geral da Junta da Acção Católica, cargo de grande notoriedade nessa época.
Em Aveiro, “D. Domingos dedica-se inteiramente ao serviço da Diocese, realizando admiravelmente o seu lema episcopal ‘sicut bonus miles Christi’. Impulsionou e reestruturou as visitas pastorais, que começam a ser preparadas pela Missão regional. Incrementou as Semanas de Estudos Sociais e os Cursos Pastorais, e fez construir o Seminário de Nossa Senhora da Apresentação, em Calvão [actual colégio diocesano], que inaugura a 16 de Outubro de 1960″, escreve Pe. Georgino Rocha, na sua tese de doutoramento (“A Acção Pastoral da Diocese de Aveiro”).
D. Domingos escreveu três pastorais (“No 20º Aniversário da Restauração da Diocese”, em 1958; “Sobre o problema do Clero”, em 1959; e “Vocações Sacerdotais e Seminários”, em 1960″), deixando inédita a exortação “O Primado da Evangelização”, que seria publicada em 1963. “Nela – escreve Georgino Rocha – faz o seu último legado apostólico, cheio de fogo e vivacidade, a fim de encorajar todos os que generosamente se dedicam ao ministério da Palavra, ao apostolado cristão”. O documento, escrito com o Concílio prestes a começar, é uma peça interessantíssima sobre a função do bispo e o uso da Bíblia, ainda que muitos temas que viriam a tornar-se fundamentais se encontrem ausentes.
Em relação ao II Concílio do Vaticano (1962-1965), o Bispo de Aveiro ainda responderia ao questionário preparatório (publicado no final de “Como Bom Soldado de Cristo”), tendo escrito no jornal diocesano que se tratava de “uma das mais gloriosas e esperançosas realizações da Igreja Católica” (CV, 13-01-1962). Mas seria D. Manuel de Almeida Trindade, nomeado para Aveiro no dia 16 de Setembro de 1962, que participaria desde a primeira sessão.
D. Domingos está sepultado no Cemitério Central de Aveiro. Sobre ele escreveu Monsenhor João Gonçalves Gaspar: “Se na vida foi inquieto, infatigável, batido pelos ventos, crispado pelas ansiedades da hora contemporânea sem conhecer medida ou limite, austero contra todas as posições negativas ou situações ambíguas, em luta permanente contra as habilidades e os cálculos de quem quer que fosse, nobre, distinto, carinhoso, paternal, a repartir-se pelas alegrias e pelas dores do seu povo, na morte foi sereno, firme, varonil, igual a si mesmo, gigante que não teme e leva a esperança e a certeza até ao fim”.
Palavras de D. Domingos
Um dia, cansado e revoltado perante tantos vitupérios e tantas blasfémias contra as verdades da Igreja Eterna e contra a dignidade do sacerdócio, entrei no Seminário, apesar da relutância de meu pai. Foi por devoção que busquei o sacerdócio, senão por esclarecida e amparada vocação. Uma vez no sacerdócio, treinado já pelas imposições rígidas da disciplina militar, considerei a disciplina eclesiástica como expressão concreta de Deus a respeito da minha vida de padre.
Discurso ao Clero, “No XX Aniversário da Restauração da Diocese de Aveiro – 1958”
Oferece-nos esta amada Igreja Aveirense um panorama ridente de luz aberta, que se espraia do oceano à serra, em tonalidades surpreendentes e repousantes na extensão das suas planuras, no bulício interminável da sua ria encantadora, no murmúrio suave dos seus rios, no esplendor das seus vinhedos sem par, na exuberância dos seus campos fecundos. Neste rincão inconfundível da Beira Litoral, palpita a vida estuante de um povo que reparte as suas actividades e as suas labutas no campo, no mar, nesta ria que não tem semelhante em toda a Península, e nos múltiplos centros de comércio e indústria, progressivos e característicos.
In Pastoral “No XX Aniversário da Restauração da Diocese de Aveiro – 1958”
O estado episcopal (…) caracteriza-se pelo dever de o Bispo servir continuamente o rebanho que lhe foi confiado, até ao sacrifício da vida. Quem recebe o Episcopado sabe o compromisso que assumiu para sempre. Se era livre a respeito de todos, fez-se escravo de todos, a fim de conquistar o maior número para nosso Senhor Jesus Cristo.
Idem
Alegrias e tristezas, triunfos e derrotas, aplausos e vitupérios, que constituem a traça da actividade apostólica dos sacerdotes, reflectem-se necessariamente na pessoa do Prelado que os tem como seu prolongamento, a formar parte integrante e insubstituível do seu múnus pastoral. Com eles se alegra e rejubila ou se entristece e chora: com eles sofre as calúnias e as difamações, que almas sem fé e sem escrúpulos se permitem atirar, em última análise, às vestes imaculadas da Esposa de Cristo, a Santa Igreja.
Idem
O maior perigo que ameaça as cristandades não é tanto a falta de piedade para com Deus, mas sim a falta de caridade para com o próximo.
In “O Primado da Evangelização”, 1962
O Cristianismo não é apenas a Mensagem doutrinal que propõe à inteligência verdades abstractas: é essencialmente uma comunicação da vida de Cristo, mistério de comunidade de vida com Cristo.
In “Para uma Evangelização Sacramental”, na II Semana de Est. Pastorais, 1953
