“Ser totalmente de Deus para ser totalmente dos homens”

O P.e Carlos Alberto Pereira de Sousa nasceu em Rocas do Vouga, em 1960 (completou 50 anos no dia 28 de Março), mas desde criança que residiu com a sua família na Gafanha da Nazaré, onde foi ordenado e agora trabalha como padre do Movimento Apostólico de Schoenstatt. Numa altura em que este movimento celebra o Jubileu dos 50 anos de presença em Portugal e se prepara para a peregrinação nacional a Fátima, nos dias 17 e 18 de Abril, o Correio do Vouga conversou com este sacerdote, que dá a conhecer o seu ministério e a espiritualidade do movimento que tem um santuário na Gafanha da Nazaré. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira

CORREIO DO VOUGA – Foi ordenado no dia 29 de Julho de 1996, por D. António Marcelino, na Igreja da Gafanha da Nazaré, depois da sua formação no Chile, na Argentina e na Alemanha. Desde que é padre, a que trabalhos esteve ligado?

P.E CARLOS ALBERTO – No primeiro ano e meio de sacerdote trabalhei nas mesmas paróquias de Paço de Arcos e Caxias, onde já fizera o estágio enquanto diácono. Ao mesmo tempo já trabalhava como assistente da Juventude Masculina de Schoenstatt em Lisboa. Também fui designado para dar assistência ao Movimento de Schoenstatt nas dioceses de Braga e Porto, aonde me deslocava uma vez por mês. Nessa altura éramos apenas três padres de Schoenstatt em Portugal e, desde Lisboa, atendíamos todo o Movimento de Schoenstatt nestas Terras de Santa Maria.

Entretanto deixei o trabalho nas paróquias, continuando apenas a colaborar com o mesmo padre, o cónego Armando Duarte, que entretanto tinha sido nomeado pároco de Algés e Miraflores.

Data desse tempo o trabalho como capelão do Sporting?

Entretanto o Movimento de Schoenstatt abre um Colégio e fui nomeado Capelão, continuando com todos os trabalhos anteriores. A pedido do Sr. Patriarca, para que os Padres de Schoenstatt colocassem um padre à disposição para a capelania da Obra do Ardina, fui nomeado para essa tarefa. Uma nota curiosa é que de repente senti que era capelão de várias coisas. Até de um Clube de Futebol, o Sporting, que desejava ter um Sacerdote para acompanhar essencialmente os atletas em formação, particularmente os que sendo oriundos de outros lugares de Portugal, viviam aí internamente. Entre os muitos que aí viviam, encontrei o Cristiano Ronaldo, nessa altura com apenas 14 anos de idade. Além do acompanhamento pessoal, havia a componente religiosa e vários receberam o sacramento do Crisma. É uma tarefa que ainda hoje tenho, à distância, desde Aveiro, com uma presença muito reduzida.

Regressou depois a Aveiro…

Sim, com a chegada de outros Padres, num total de cinco, dois fomos para Aveiro, e daí atendíamos o Movimento de Schoenstatt em toda a região centro/norte de Portugal, mais propriamente Coimbra, Aveiro, Porto e Braga.

Neste momento, sou o único padre de Schoenstatt em Aveiro e atendo o Movimento nesta diocese e também um pequeno grupo de schoenstattianos em Coimbra. Duas vezes por ano desloco-me ao Funchal, onde estamos a dar início ao Movimento na Ilha da Madeira.

Como vive a espiritualidade associada a Schoenstatt?

Em primeiro lugar, temos a Aliança de Amor com Nossa Senhora. Esta Aliança é a fonte da vitalidade e o centro da espiritualidade de Schoenstatt, é o coração de Schoenstatt. Sinto que Maria me ajuda a viver com maior profundidade um contacto vivo e permanente com Deus, pois foi assim que Ela viveu e nos convida e ajuda a viver. Além disso, em aliança com Ela, nasce em mim uma maior consciência de missão. Cito um exemplo bíblico de que gosto particularmente: a Visitação de Nossa Senhora à Sua prima Isabel. Portadora de Cristo, portadora das graças de Deus, não fica instalada no seu ser a Mãe de Deus, mas vai ao encontro dos homens.

Em segundo lugar, a Aliança de Amor compreende necessariamente uma projecção apostólica. Por isso, quero converter-me num instrumento de Maria para servir, como Ela fez em toda a sua vida. Esta é também uma das características da espiritualidade de Schoenstatt, a espiritualidade do instrumento.

Tento viver a relação com Deus, não só na participação de alguma celebração litúrgica, mas na totalidade da minha vida, aquilo que o nosso Fundador chamava “santidade da vida diária”, uma santidade que vive harmonicamente a fé e a vida.

Estando a Igreja a viver o Ano Sacerdotal, impõe-se a questão: como vive o sacerdócio ministerial?

Em resposta a esta pergunta começo por mencionar a celebração dos sacramentos. Esta é uma das minhas maiores alegrias. A concretização da vivência da espiritualidade do instrumento consiste precisamente em deixar que Deus actue através de mim. Sinto-me indigno de tal grandeza, mas por outro lado, a felicidade de que, mesmo assim, Deus me quer utilizar para, através de mim, as suas graças e dons possam chegar a muitos.

Também a forma como normalmente me visto é propositada. A maior parte das vezes estou bem identificado como sacerdote, penso que se o meu ser é ser sacerdote, então devo ser um sinal visível no meio do mundo de hoje, onde penso que faltam muitos sinais que nos falem de Deus.

Gostaria também de mencionar a importância para mim do sacerdócio ministerial, ou seja, uma consagração totalmente a Deus. Ser totalmente de Deus para ser totalmente dos homens.

O sacerdócio é feito também, com certeza, de dificuldades e incompreensões…

Na verdade não posso falar de dificuldades maiores ou incompreensões. Sempre existem pequenas coisas que agradam mais a uns e menos a outros, mas até agora, na minha vida sacerdotal posso dizer que só posso dar graças a Deus por tudo.

Na vivência do sacerdócio ministerial, devo também mencionar o sacerdócio fraterno. Passo a explicar: o estilo de vida da minha Comunidade é viver em comunidade. Isso é muito importante para mim, a partilha, a vivência fraternal em comunidade, dá-me maior estabilidade. Sinto que não conseguiria viver sozinho, uma das razões porque me decidi pelos Padres de Schoenstatt.

Tem algum lema?

Tenho um a que chamo Ideal Pessoal que reservo para mim. Mas quero partilhar outro que é a citação bíblica que vem da minha ordenação Sacerdotal: “Eu consagro-me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade” (Jo. 17, 19).

Esta passagem tem muito a ver comigo, pelo menos pelo que procuro ser como sacerdote e também a razão de ser do meu sacerdócio. Trata-se da identificação com Cristo, pois só assim tem sentido ser sacerdote. Consagrar-se por eles significa oferecer-se a Deus, assim como Cristo. Oferecer-se a Deus pelos outros e para os outros. Acho que o meu sacerdócio só tem sentido a partir desta entrega total, na oração e principalmente no sacrifício Eucarístico. Por outro lado, procuro viver o meu sacerdócio desde a perspectiva do ser para os outros, estar no meio dos outros para eles.

Por último, esta consagração vivo-a também desde a perspectiva mariana. Maria, a cheia de Graça, é totalmente consagrada a Deus. Em Aliança com Ela, como dizemos em Schoenstatt, em Aliança de Amor com Maria, encontro uma forma concreta de, através d’Ela, viver em aliança com Deus.

Como é o P.e Carlos em privado? Gosta de desporto? Costuma ler?

Como sou em privado? Igual ao que sou em público, sou eu mesmo. Mas posso contar algumas coisas dos meus gostos. Em primeiro lugar gosto muito de futebol, sou péssimo a jogar, mas gosto de ver. No meu tempo livre gosto de passear, ver algum filme, ler e, por vezes, cozinhar. Gostaria de ter mais tempo livre para poder ir ao futebol, diga-se, a Lisboa ver o Sporting. Em relação a filmes não tenho um tema muito específico. Gosto de acção, comédia, históricos como do estilo do “Pianista” – um dos filmes que mais gostei de ver. Quanto a leituras, deixo um autor: Augusto Cury. De música pop gosto particularmente dos U2 e dos Coldplay.