Carta aberta Caro D. António Baltasar Marcelino!
Li no CV que hoje, 8 de Dezembro de 2006, pelas 16h00, terá início uma celebração especial e solene, na Sé de Aveiro. Passagem pelo Museu, pedindo a bênção da nossa Santa Joana Princesa… Bula papal…Evangelho… Palavras suas e, então, o Outro António passa(rá) a presidir à celebração e diocese. António sucede a António, só isso. Não, mas a minha fé e imaginação me levam longe, quase desejando encarnar por aí, porque eu nasci aí para a fé nessa diocese-mãe e com esse bispo-pai, que agora deixa as suas funções directivas.
Tenho tentado de diversas maneiras “fazer um escrito” e ele não se escreve… eu que sou tão pródigo noutras matérias. Queria escrever sobre os pedaços de histórias em comum… O bom, o mau e o que é eterno, sobretudo o que é eterno… Mas não sou capaz de o fazer. O cansaço excessivo do trabalho… as emoções, mesmo racionalizadas, não obedecem. E a fé nos seus atributos se envolve num mistério indecifrável…
E agora o que vai acontecer… o projecto de cooperação missionária, concluída a segunda fase, em Julho de 2007… Agora a vida continua… “Mudam os rostos, passam os anos…” Será assim que vai acontecer… Vou renovar mais uma vez? Outro na diocese poderá assumir o desafio (que é diocesano e não apenas pessoal, para mim o é no presente…) Perguntar abre horizontes. Mas não é hora de perguntas, mas do simples, humilde e reconhecido: OBRIGADO.
Obrigado, pela sua inteligência, dizer intuitiva é muito pouco, banhada na razão simbólica, é dizer quase nada. Obrigado, pelo seu testemunho humano e coerente. De outros bispos em tempos de seminário, “literalmente eu fugia e ainda me afasto hoje”. De si, o desejo nunca realizado de ser mais próximo, de ser mais íntimo, de ser um seguidor, mais capaz e forte… Obrigado, pelas suas broncas… Não devem ter sido o suficiente… Mas a fé que me resta na Igreja está encarnada em pessoas da sua envergadura, prática, teórica e pastoral… Obrigado, por ficar ainda, entre nós, espaço-tempo diocesano de Aveiro, pois quem brilha com luz própria não ofusca ninguém (!?). Obrigado, por nada e por tudo!
Transcrevo (é também hora dos excessos) agora, parte de outro texto, escrito por mim, para uma pessoa que muito me marcou nesta experiência missionária aqui, e que tem muito a ver com o que eu lhe queria “começar a dizer” nesta hora:
“Há pessoas a quem devemos uma gratidão quase divina: as que nos fazem evoluir na qualidade da nossa fé. Quando somos conhecidos por uma pessoa dessa natureza, jamais seremos os mesmos.
Essas pessoas têm um dom especial. Elas não esqueceram que, na fé cristã, não se trata antes de tudo de sermos santos, mas de seguir Jesus. Não fomos convocados, com efeito – como não o foram os apóstolos –, para trabalhar numa escola ascética de perfeição (o próprio Jesus não foi nem se apresentou como asceta), mas para seguir Jesus num projecto de transformação da realidade. Num projecto de cidadania solidária. Por isso mesmo, não se trata tanto de imitar Jesus, mas de seguir os seus passos. Não se trata de pousar os olhos diante do espelho, mas de situá-los nas pegadas daquele que desejamos seguir. Não se trata de fazer de Deus apenas uma necessidade de segurança, mas sobretudo um desejo profundo de liberdade. É preciso ter a coragem de perder o medo!
Essas pessoas de uma fé invulgar associam também a si uma sensibilidade sócio-política apurada. Elas sabem, dentro do seu coração, que podemos estar em pecado sem nos sentirmos culpáveis: “Senhor, quando é que nos sucedeu ver-te com fome ou sede…sem ir dar-te assistência?”, interrogam-se os “julgados” em Mt 25,44. Para essas pessoas, quanto pior está o mundo, mais aumenta o seu compromisso. Quanto maior é a injustiça, maior é a luta de libertação. O seu combustível é feito duma Esperança aditivada nos pobres amados por Deus.
Essas pessoas revelam que Deus é Grande, maior que a nossa consciência. O Deus vivo e gozoso, o Deus livre e libertador, não pode jamais converter-se num Deus de morte e tristeza, num Deus oprimido e opressor, por obra e desgraça da nossa corrupção. Essas pessoas fazem verdadeira a afirmação de Carlos Morano: “Deus nos libertou dos pecados… Torna-se urgente libertar Deus da culpa”. Libertar Deus da culpa para lhe devolver sua Vida, a vida dos seus filhos: na grande festa da fraternidade. Essas pessoas tiraram-nos (e receberam tantas vezes no vazio de uma sala, o troco da nossa ingratidão, da nossa indiferença, da nossa mesquinhez…) das mãos dos demónios, visíveis no pior deles, como o analfabetismo. Fazem das pequenas obras armas que ameaçam os poderosos de colarinho. Essas práticas jamais serão esquecidas!
Essas pessoas não podem ser avaliadas, exclusivamente, com os nossos olhares do sucesso/fracasso; perda/ganho; vitória/derrota, etc. Essas pessoas avaliam-se no significado, no sentido, no impacto profundo, no fazer acontecer. Nas suas sementes de boa qualidade e não “puramente” nos frutos amargos, que nós não deixamos amadurecer”.
Uma dessas pessoas, que conheci, respeitei e admirei, profundamente, foi o bispo António Marcelino. Este é um simples tributo que agora deixou de estar silenciado. Que o seu sorriso nos abençoe e nos dê uma centelha da sua ira divina e pacífica, na igualdade de quem abriu sempre o seu Coração! Até ao próximo encontro-reunião-convívio-liturgia!
Um abraço (e)terno do padre e do amigo, que o queria ser mais e melhor!
Pedro José,
Chapadinha, 08-12-06.
