Associação de Defesa e Apoio à Vida já ajudou quase uma centena de mulheres

Desde que foi criada em Aveiro, em Julho de 2000, a Associação de Defesa e Apoio à Vida ajudou 93 mães. O número não coincide com o número de crianças nascidas. A ADAV apoia mulheres grávidas, mas estende a sua acção igualmente às mulheres que já tiveram os seus filhos e que se encontram em algum tipo de dificuldade.

O trabalho da ADAV, uma das organizações que saiu dos movimentos do “Não” após o referendo de 1998 (como a “Ajuda de Berço”, em Lisboa, por exemplo), é um sinal claro de que esses movimentos assumiram o compromisso de ajudar as mulheres grávidas. O aborto não pode ser nunca a solução.

Como trabalha a ADAV? O Correio do Vouga falou com Cristina Ribau, uma das voluntárias mais empenhadas da associação.

“O serviço mais importante da ADAV é a linha telefónica. Com esta linha telefónica encaminhamos as pessoas para o nosso Gabinete de Atendimento (GA) ou para outro tipo de serviço social, se o caso não for do âmbito específico da ADAV”, refere Cristina Ribau.

O GA tem vários serviços: atendimento e informação (duas pessoas), jurídico (duas juristas), médico (uma ginecologista e um pediatra), psicológico (uma psicóloga), domiciliário (cinco pessoas). Este último serviço consiste na visita a casa das mulheres apoiadas, quando se justifica, com a finalidade de levar a ajuda alimentar (resultante de um protocolo com o Banco Alimentar Contra a Fome), os artigos do enxoval do bebé, nomeadamente roupa para as diferentes idades da criança, camas, carrinhos de bebé…

“O apoio domiciliário permite também manter uma proximidade com a mãe e o bebé, com vista a detectar outras necessidades e a assegurarmo-nos de que ambos se encontram bem, a nível psíquico, físico e material. Sem o apoio domiciliário, muitas das nossas utentes ficariam privadas da nossa ajuda, pelas dificuldades em se deslocarem e carregarem pesos, quer enquanto se encontram grávidas, quer depois do bebé nascer”, afirma Cristina Ribau.

A ADAV tem sede em Aveiro, mas a sua acção não se limita a este concelho, conforme indica Cristina Ribau: “Apesar de limitado nos recursos humanos e materiais, o trabalho da ADAV não se limita ao concelho de Aveiro e já se estendeu a Santa Maria da Feira, Oliveira de Azeméis, Águeda, Oliveira do Bairro, Ílhavo, Albergaria-a-Velha, Estarreja, Sever do Vouga, Murtosa e Mira, municípios onde apoiámos casos concretos e, em alguns destes municípios, mais que um caso”.

Poucos recursos para tão grande missão

Já que se referem os recursos humanos e materiais, quais são os da ADAV? “Uma instituição como a nossa, apesar de ser uma IPSS [instituição particular de solidariedade social], vive exclusivamente do trabalho voluntário, sem qualquer apoio financeiro público até ao momento, e só subsiste graças à generosidade de uma infinidade de pessoas, que discretamente sustentam, no quotidiano, a missão que nos move. Algum desse trabalho é realizado de forma mais sistematizada e, tem por isso, maior visibilidade. Este apoio regular é prestado por 13 pessoas, divididas por diferentes áreas de intervenção”, esclarece Cristina Ribau.

Todos os custos da ADAV são suportados pelas quotas dos sócios, por alguns donativos e pela generosidade dos voluntários, nomeadamente nas deslocações e na manutenção da linha telefónica. “É quase um milagre trabalhar nestas condições”, afirma a voluntária, reconhecendo que “cada vez mais será necessário recorrer a recursos humanos remunerados”, embora, por enquanto, tal ainda não seja possível.

As grandes carências da ADAV, neste momento, são os recursos materiais, para apoio às mulheres que pedem ajudas, como fraldas, roupa de cama de bebé, camas, alcofas, cadeiras de bebé, e um espaço maior para sede, em vez do “espaço exíguo” na Casa Municipal da Cultura, no centro de Aveiro. Um espaço maior poderia dar asas a um desejo da associação. “Temos um sonho antigo, que é também uma necessidade: prestar às nossas utentes formação sistematizada, para além da que é feita em gabinete. Gostaríamos de poder aprofundar a formação em áreas como: puericultura, saúde materno-infantil, planeamento familiar, desenvolvimento pessoal e profissional… Para tudo isto, necessitamos de espaço e recursos financeiros”.

Quem pede ajuda?

Cristina Ribau afirma que não existem “casos típicos”, pois cada caso pede uma ajuda específica, mas aponta alguns traços comuns às mulheres que pedem ajuda à ADAV.

Desejo de ter o filho

“Trata-se normalmente de mães que, apesar de se encontrarem em dificuldades, desejam ter os seus filhos. Não desejaram as circunstâncias em que estão a viver a sua gravidez, mas desejam os seus filhos. Isto tem-me levado a dizer com frequência que não somos testemunhas de gravidezes indesejadas, mas sim de alguma desolação perante as dificuldades resultantes de gravidezes não planeadas. Ainda não tivemos nenhum caso em que nos foi dito “eu não quero este filho”, mas sim “gostaria que as coisas tivessem acontecido de outra maneira e agora não sei o que fazer ou se me podem ajudar”. Ou seja, salvo uma situação em que uma terceira pessoa nos pediu para ajudarmos uma pessoa próxima a abortar, ainda nenhuma mulher nos pediu para a ajudarmos a fazer um aborto; pedem-nos simplesmente ajuda perante uma ambivalência de sentimentos, entre a ligação afectiva ao filho que cresce dentro delas e as dificuldades em que se encontram muitas vezes, sem verem qualquer luz ao fundo do túnel, que frequentemente também resultam de um profundo desconhecimento dos seus direitos e dos apoios que podem obter”.

Boa condição social

“Há também um outro aspecto que é importante salientar. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, as mulheres que nos pedem ajuda não são maioritariamente mulheres provenientes de classes sociais muito desfavorecidas, já sinalizadas pelos serviços sociais, mas sim pessoas que se encontram numa situação precária a diversos níveis resultante do simples facto de se encontrarem grávidas. Trata-se, por exemplo, de mulheres que, por se encontrarem grávidas, ou perderam o emprego ou viram a sua estabilidade familiar profundamente afectada por opiniões diferentes no seio da família relativamente ao futuro dessa gravidez (pais, companheiro…). Daí, que muitos destes casos não sejam conhecidos dos serviços sociais, porque só agora, que se encontram grávidas, as pessoas se viram com necessidade de pedir ajuda. Isto reforça também a vital importância de um apoio específico para estas situações, onde é garantido total sigilo, com o menor número de pessoas na mediação possível, sem o constrangimento de terem que contar a sua situação a uma série de pessoas ou instituições até que possam encontrar algum tipo de ajuda”.

Jovens adultas

“Contrariamente ao que por vezes se pensa – afirma Cristina Ribau – não são maioritariamente adolescentes que pedem ajuda. A percentagem de casos de gravidez adolescente apoiados pela ADAV é de 8%. A idade média das mulheres que nos pediu ajuda é de 23 anos”.

É importante formar e prevenir

Em simultâneo com o Projecto Nascer (apoio à grávida e mães) e o Projecto Viver (apoio a doentes terminais e familiares), a ADAV tem o Projecto Crescer, vocacionado para a formação e prevenção. Este Projecto está em reestruturação, mas a ADAV responde regularmente a pedidos de formação, que lhe são feitos quer por escolas, IPSS, Escolas de Pais, paróquias, etc., facultando os recursos materiais e humanos de que dispõe.

Nos últimos dois anos, a ADAV desenvolveu 50 acções de formação em 9 IPSS do distrito de Aveiro, envolvendo 6 municípios no âmbito do Projecto ISSI, financiado pelo Aveiro Digital. Muitas destas acções foram na área da educação sexual e da prevenção dos comportamentos sexuais de risco.

Perfil da Associação

A Associação de Defesa e Apoio à Vida é aconfessional e apartidária. Surgiu em Coimbra e expandiu-se para Aveiro.

Constituição: Por escritura pública, em 21 de Julho de 2000.

Contactos: 234 424 040 ou 967 595 215

A linha telefónica é o principal meio de contacto com a ADAV. Quando os cartazes da associação estão na rua através de mupis (o que tem os seus custos) há, em média, duas mulheres por mês que pedem auxílio.

Parceria: A ADAV está integrada no Projecto RIA – Rede de Intervenção de Aveiro, que congrega vários organismos de apoio social no município de Aveiro.

Presidente: Amândio de Albuquerque, preside actualmente à ADAV. O médico de clínica geral reafirma que o grande objectivo da ADAV é “ajudar as mães a levar a sua gravidez até ao fim” e a “conceder-lhes apoio material e psicológico” nos primeiros anos de vida dos filhos. Até Novembro de 2006, altura em que houve eleições, foi presidente o médico cardiologista Rogério Leitão, antigo presidente da Assembleia Municipal de Aveiro.