A vida continua

Ponta de Lança A semana começou com a notícia mais aguardada desde a Manifestis probatum (1179), a bula emitida pelo Papa Alexandre III, que outorgou, pelo reconhecimento, D. Afonso Henriques como Rei e o Condado Portucalense independente do reino de Leão! Bem, mas não querendo ter como referência práticas e instituições medievais, digamos que foi a notícia mais importante desde a Conferência de Zamora (1143), onde se celebrou o tratado de paz entre Afonso Henriques e D. Afonso VII de Leão, depois do qual foi reconhecido ao infante português o título de Rei! Mas, em abono da verdade, pela peleja que tudo acelerou, talvez a notícia mais importante desde a batalha de S. Mamede (24 de Junho de 1128), quando as tropas de Afonso Henriques derrotaram as de sua mãe, D. Teresa, tomando o governo do Condado Portucalense e, com ele, o movimento para a criação do reino.

Agora sim! Alcançámos a modernidade! Este foi o referendo que faltava para ver destruídas todas as instituições que nos agrilhoaram durante séculos?!

Já que somos modernos e europeus de pleno direito, porque é que não acabamos com estas fronteiras medievais? Vamos franquear todas as portas a Espanha, vamos recuperar em definitivo o atraso, começando, por exemplo, por adoptar a recente legislação espanhola sobre outras matérias modernas, vamos tornar esta República em Monarquia Espanhola!?

O eterno retorno ganha contornos, pelo menos na corrente que diz respeito aos ciclos repetitivos da vida, em que estamos sempre presos a um número limitado de factos, factos que se repetiram no passado, ocorrem no presente, e repetir-se-ão no futuro, como por exemplo, guerras, epidemias, etc. – assim falaria Zaratrusta!

Lamentavelmente, o que se disse ser moderno (o sim ao aborto) é, na nossa perspectiva, um raciocínio mal construído. Parece que há alguma confusão terminológica que baralha a periodização da história nas várias expressões (filosófica, arte, ciência, económica, tecnológica,…)!? Parece que a Idade Moderna já cessou, grosso modo com a introdução da Idade Contemporânea (colocada genericamente, mesmo que falhe a unanimidade, com o triunfo da razão sobre o romantismo renascentista e o teocentrismo). Contudo, é preocupante ouvir falar de moderno no século XXI, quando, no máximo, a modernidade tocou o último quartel do Século XIX!?

Afinal, vamos manter o atraso que, pelas considerações apontadas nestes últimos dias, se cifra já em mais de uma centena de anos, em detrimento dos “clássicos” cinquenta!

Mas, no meio de tanto avanço civilizacional, em que o Príncipe (de Maquiavel) não ficaria envergonhado, há matérias que só aqui, neste apontamento, podemos referir com o seu carácter genuinamente contemporâneo: o futebol! Esta (realidade) sim! Há igualdade, há oportunidade, há liberdade para qualquer um superar qualquer outro! A vontade, a argúcia, como elementos fundamentais de expressão! Não bastam os meios (sobretudo os poderosos!). Não é nada medievo ou moderno! Está para além e sofre com a modernidade! Porque, colhendo da mesma admiração de Francisco Soler em entrevista ao Diário de Aveiro, os nossos estádios continuarão vazios com a legalização desta “modernice”, o aborto!

Desportivamente… pelo desporto!