Colaboração dos Leitores Concluindo o espaço dedicado aos “Grandes Aveirenses”, referem-se hoje três personalidades: General João de Almeida, por sugestão do assinante António de Barros Paula Santos, Fernão de Oliveira e Alberto Souto, estes dois últimos sugeridos por um leitor que não quis ser identificado.
João de Almeida nasceu em 1873, em Carrião, Vila Garcia, e veio casar a Aveiro, com uma filha de José Manuel Mendes Leite (o célebre aveirense que esteve na origem da abolição de pena de morte em Portugal). Tornou-se, por isso, senhor da “Casa do Seixal”, onde passou alguns períodos. Em 1906, partiu para Angola, distinguindo-se nas campanhas militares do norte de Angola. Ficou conhecido, popularmente, como “Herói dos Dembos”. Por motivos de doença, regressou a Portugal em 1908, mas voltou a Angola no ano seguinte, como governador da Huíla (sul), sendo responsável pela fixação da fronteira sul de todo o território angolano. Um trabalho militar e geográfico notável. Após a queda da monarquia, é demitido, mas volta a assumir cargos públicos em 1918, ao ser nomeado director interino das Obras Públicas de Cabo Verde.
O general João de Almeida deixou vasta obra escrita e, na Casa do Seixal, um valioso espólio das campanhas militares africanas. Morreu no dia 6 de Maio de 1953, em Lisboa.
Fernão de Oliveira, espírito irrequieto e aventureiro, foi o autor da primeira “Gramática da Linguagem Portuguesa”, publicada em 1536. A sua vida está cheia de peripécias. Perece um romance de aventuras. Vejamos algumas. Educado no Convento de S. Domingos, entra no convento eborense da mesma ordem, mas foge para Castela, aos 25 anos. Novamente em Portugal, é educador de filhos de ilustres (como de João de Barros). Em 1540, parte para Itália. Novamente em Portugal, receia a Inquisição e foge para França, combatendo por Francisco I contra a Inglaterra. Porém, é capturado e levado para Inglaterra, tornando-se amigo e protegido de Henrique VIII (o rei que se “zanga” com o Papa e está na origem do anglicanismo), que lhe dá rendimentos. De regresso a Portugal, acaba por ser perseguido, efectivamente, pela Inquisição (nessa altura declara-se natural de Aveiro), em 1547, por causa das simpatias pelo rei cismático. Mas é igualmente detestado pelos judeus (“cristãos novos”), pois considera-se que a sua viagem a Itália servira para pedir ao Papa a Inquisição. Para sair das prisões do Santo Ofício, valeu-lhe o apoio do Conde de Castanheira. Depois de um período em que esteve no convento de Belém (Lisboa), “para sossego da sua consciência e salvação da sua alma”, parte para África, sendo feito prisioneiro em Argel. Em 1553 está novamente em Portugal, exercendo o cargo de revisor da imprensa da Universidade de Coimbra. É novamente preso pela Inquisição, mas sabe-se que em 1565 está livre, pois recebe de D. Sebastião uma tença de 20 mil réis.
Julga-se que este aveirense morreu em Lisboa, no ano de 1581. Fernão de Oliveira era especialista em náutica e além da gramática escreveu: “A Arte de Guerra do Mar”, “Livro da Fábrica das Naus”, “De re rustica” e “A Arte de Navegação”. Desta última obra não existe nenhum exemplar.
Alberto Augusto Simões Souto Ratola nasceu no lugar do Bom Sucesso (freguesia de Aradas, Aveiro), no dia 23 de Julho de 1888. Órfão de mãe aos três anos, é educado pela madrinha, dispondo nessa casa de uma vasta biblioteca de Direito, Literatura e História – o que muito terá contribuído para a formação de Alberto Souto. Frequentou o Seminário de Coimbra (teve como professor o Pe. João Evangelista de Lima Vidal, que viria a ser o “bispo restaurador de Aveiro”) e começou então a escrever para os jornais “A Vitalidade” e “Nauta”. Deixa o Seminário em 1905 e estuda nos liceus do Porto e de Aveiro. Apoiante da República, é nomeado administrador do concelho de Estarreja, após a queda da Monarquia. Funda o jornal “A Liberdade”, participa na fundação de “O Democrata” e é deputado por Aveiro à Assembleia Nacional Constituinte (1911-1915). Terminando o curso de Direito em 1919, estabelece-se como advogado em Aveiro e, com Máximo Júnior e Lívio Salgueiro, cria o Banco Regional de Aveiro, que dirige até 1928. Com Homem Cristo e outros, cria a “Aliança Regionalista” (1921), uma associação de luta pelos interesses de Aveiro. Alberto Souto desempenha com reconhecido mérito cargos públicos de relevo: presidente da Associação Comercial e Industrial de Aveiro (1920), Presidente do Senado Municipal (numa lista que lança a candidatura de Lourenço Peixinho), director do Museu de Aveiro (1925). Como historiador e arqueólogo, cria a Secção de Arqueologia e Proto-Histórica no Museu de Aveiro e, com Marques Abreu, elabora o volume “Aveiro”, da colectânea “Arte em Portugal”. Em 1957, é nomeado presidente da Câmara Municipal, sendo responsável pela comemoração do Milenário de Aveiro (1959). Em 1961, é afastado da Câmara, por uma “intriga política de contornos pouco dignos”. O desgosto que sofre acabará por provocar a sua morte, desiludido, a 23 de Outubro desse ano.
Nota: Os apontamentos biográficos de Fernão de Oliveira e Alberto Souto baseiam-se principalmente na obra “Ruas que são Gente”, de Carlos Campos, Fausto Ferreira e Gabriela Amorim Faria (edição da Câmara Municipal de Aveiro, 2000).
