Vamos à bola

Ponta de Lança Este apontamento tem a particularidade, poder-se-á dizer que é ímpar, porque entre todas as matérias… até pode abordar o fenómeno desportivo, ou, para evitar a hipérbole, simplesmente o desporto!

A época que medeia o Carnaval e as Cinzas é propícia para falar de desporto: há casos de toda a ordem, suspeitas, indícios de corrupção, processos, sumaríssimos, doping (análises e contra-análises), apitos de várias cores, folias, cidadãos tristes em cortejos supostamente de folia! Este corso (o desportivo, mas não é único) parece carnavalesco.

Há manifestamente uma intrigante interligação entre o momento, esta quadra de três dias (passe o paradoxo), e tudo o que reina na nossa sociedade a partir do desporto, do espectáculo.

É difícil encontrar outro tempo na nossa existência como povo onde tantos vivem divertindo tão poucos. Não há público nos estádios, há pouco público nos cinemas, todos os protagonistas do meio teatral verificam ausência de espectadores, a música vende-se mal, as televisões repetem até à exaustão os mesmo programas, etc.; mas todas as semanas há estreias, em todas as revistas sociais (cada vez em maior número) encontramos um crescente elenco de pessoas que são… actor ou actriz! O futebol continua a transaccionar atletas; as equipas de ciclismo apresentam-se; a Fórmula 1 e as de rali aí estão; os fins de tarde e os fins de semana estão preenchidíssimos com potenciais nadadores, bailarinos, pianistas, basquetebolistas, hoquistas,… nas várias colectividades e entidades que graciosa ou lucrativamente dão oportunidade aos sonhos dos filhos e, não menos vezes, aos sonhos dos pais para os seus filhos!

Vejamos: o tempo é de austeridade, de controlo das contas públicas, de deminuição do consumo desenfreado e endividamento, sobretudo em bens de consumo e desgaste rápido, mas não falta dinheiro e justificação para o seu gasto em momentos de alegria, de devaneio.

A questão aqui não é de qualquer falso moralismo; mas é interessante como nós, todos nós, conseguimos encontrar solução para o que nos dá mais gozo. Portanto, também somos capazes de, bem enquadradas as motivações, sermos mais produtivos, mais eficientes, mais portugueses.

Entre nós, com o emprego a aumentar e os portugueses a revelarem a maior estima centrada em ter emprego (reconhecidamente de parco vencimento), é legítimo pensar que somos cada vez mais da banca. A banca é movida por muitos capitais de bancos situados em negócios pelo mundo, onde é possível ganhar muito em pouco tempo. Os nossos bancos são cada vez mais do mundo. Sendo cada vez mais do banco, somos, cada um por si, cada vez mais dos outros e menos de onde está. Isto é, o que vemos já não somos nós próprios,…talvez máscaras! Talvez Carnaval.

E depois disto… só falta chegarem os dias de penitência!?

Desportivamente… pelo desporto!