A Igreja na cidade configura, de vários modos, o seu rosto humano e social. Acontece o mesmo na cultura urbana, que tende a impregnar a vida colectiva e a criar novos espaços de convivência entre as pessoas, os grupos e as associações que dão consistência à sociedade.
A presença pública da Igreja é, antes de mais, fruto de um direito humano fundamental próprio de todo o cidadão. A substância deste direito consiste na liberdade de consciência, de associação e expressão, na liberdade religiosa enquanto dimensão maior do ser humano perante a verdade, a Verdade suprema, que para os cristãos é o Deus de Jesus Cristo.
A sociedade e, nela, os responsáveis pelo fomento, pela coordenação e animação das instâncias que promovem o bem comum, beneficiam imenso desta presença tão entranhada no modo de ser da vida colectiva e tão próxima à situação real do país profundo que nós somos, embora muitos pareçam ignorar ou menosprezar esta realidade.
Essa presença diversificada em famílias, grupos, movimentos, comunidades de vida consagrada, instituições de beneficência, paróquias, plasma-se num povo que, dominicalmente ou em outras ocasiões significativas, acorre aos templos, peregrina a santuários, faz festas e organiza divertimentos, ergue sinais públicos das suas devoções, desfila em procissões, constrói obras sociais e vela pela memória colectiva que é fonte de identidade no presente e de energia para o futuro.
É este povo que, em Jesus Cristo, aprende a dar a vida por todos os seus irmãos em humanidade e, por isso, é capaz do maior heroísmo na simplicidade do seu agir em prol da vida humana em todas as suas fases, da dignidade da consciência e do seu direito à informação correcta e ao respeito, quando tem de recorrer à objecção fundamentada; é este povo que, sendo de Deus, mais humano se faz, servindo a todos com a máxima solidariedade, especialmente aos deserdados daquilo a que têm direito, a começar pela própria dignidade e pelos bens mais elementares para a subsistência; é este povo que, guiado pelo Espírito Santo, está atento ao que vai acontecendo e, qual sentinela da história, alerta para o valor da novidade, pressente os desafios que vão emergindo e, ainda que não os saiba formular em termos técnicos, expressa-os nas suas atitudes de vida, aceitando ou rejeitando o que vai captando.
A universalidade vive-se localmente
A paróquia surge como a expressão mais conseguida daquela multiplicidade de formas que não se excluem umas às outras, mas se integram na mesma Igreja diocesana e universal. Deste modo, a catolicidade vive-se localmente, a começar pelas dimensões da fé e a culminar na celebração da eucaristia e no serviço por amor. A paróquia é, por definição, uma comunidade instituída. Consequentemente, não pode ser apreciada apenas como instituição ou como comunidade; pelo contrário, exigem-se mutuamente, constituindo uma autêntica instituição-mensagem.
Sendo comunidade de pessoas, há-de ter medida humana, configurar a sua imagem religiosa e social, a partir das formas de relacionamento dos seus membros e grupos, da convergência em objectivos comuns, acessíveis e motivadores, da participação de todos naquilo que a todos diz respeito, da missão que cabe a cada um e a toda a comunidade nos mais diversos âmbitos da vida social, económica, política, cultural. Todos estão em missão, sempre! As funções são necessariamente diversas, mas igualmente dignas e complementares.
A missão de cada baptizado é ser fiel a Jesus Cristo e, coerentemente, desvendar a sua presença ou ausência em todas as realidades humanas. “Senhor, quando foi que te fizemos o que acabas de dizer?”– perguntam os inquiridos aquando do encontro final com Jesus Cristo. E este responde, com toda a clareza: “Sempre que o fizestes ou não a um dos meus irmãos mais humildes”.
A relação com “os pequeninos” da terra significa, de forma exemplar, a missão primordial da comunidade paroquial e expressa-se na realização dos serviços mais adequados às necessidades de quem está privado de bens essenciais: espaços e tempos para acolher e escutar, processos para acompanhar e manter sempre que se justifique uma relação de ajuda, pedagogias que favoreçam a libertação de “feridas” abertas ou preconceitos exacerbados, provocados por atitudes religiosas desadequadas, propostas de estilos de vida imbuídos de confiança e de alegria, celebrações dignas da assembleia convocada pelo Senhor ressuscitado, fonte de toda a esperança.
Atenção ao social
Não basta a satisfação destas necessidades básicas. A paróquia é escola de iniciação cristã, de educação da fé genuinamente católica, de diálogo com todas as pessoas que demandam os seus serviços. E são muitas. E estão em situações diversíssimas. E apresentam urgências que reclamam respostas imediatas. E sentem-se tão sozinhas e tão abandonadas que vivem o drama de quem está exposto à tormenta não apenas da falta de recursos, mas da sua própria impotência anímica e espiritual.
O serviço social prestado, ainda que humilde, tem um alcance humanitário incomparável. Sem ele, que seria dos cansados da vida, dos enjoados da rotina e das drogas, dos empobrecidos de bens e da auto-estima, dos saturados da solidão, dos rejeitados pela família, dos que se sentem estranhos na sua terra, e de tantos outros?!
Apesar das suas limitações – que são grandes –, este serviço está chamado a ser esperança para muitos, revigoramento para a própria sociedade e interpelação para os responsáveis pela convergência de todas as forças na realização do bem comum. Reconhecê-lo é a prova mais elementar de que o poder político conhece realmente quem, de facto, humaniza o tecido social e cria redes de solidariedade. Assumi-lo, sem complexos inibidores nem interferências indevidas, constitui um teste à qualidade da vida democrática, à verdade do Estado e à autenticidade do serviço dos governantes. Um gesto de amor vale mais que mil discursos vazios de conteúdo e cheios de retórica.
