Sónia Pinho, 26 anos, concluiu em Fevereiro passado uma experiência missionária de um ano e um mês no Brasil, em plena Amazónia. Para esta jovem de Lombomeão, Vagos, ligada à ong Orbis – Cooperação e Desenvolvimento, a missão significou uma nova visão da Igreja e novas atitudes perante a vida. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
CORREIO DO VOUGA – Foi fácil deixar a Amazónia e regressar a Portugal?
SÓNIA PINHO – Para começar, houve uma diferença de 33 graus de temperatura. Saí de Manaus, estavam 37º. Aterrei em Lisboa, estavam 4º. A parte boa de regressar é rever família e amigos, mas não foi muito fácil o regresso, após um ano e um mês de missão. As prioridades mudam, a forma de ver a vida muda. Chego e sinto-me um pouco perdida, porque as pessoas estão na mesma. Ninguém tem culpa. É assim mesmo. Eu é que vivi outra forma de estar. A fase de readaptação não é muito fácil.
Quer dizer que veio modificada? Em quê?
Amadureci muito. Tive a felicidade de ir para uma missão com missionários que estavam lá há pouco tempo, três ou quatro meses. Participei na renovação daquela área. Aprendi a reagir em situações difíceis, aprendi a ser assertiva, a lutar por coisas que aqui damos como garantidas, como sejam a formação e a escola. As preocupações, lá, são outras.
Disse que a readaptação não é fácil. Debate-se com dúvidas sobre o seu futuro profissional, por exemplo?
Sim. Tenho necessidade de perceber o que vai ser o meu futuro. A missão transforma muito as pessoas. Agora tenho várias opções pela frente, como voltar a trabalhar numa empresa e ter um salário seguro ao fim de mês ou fazer algo na área da cooperação e do desenvolvimento.
O que fazia antes da ida para o Brasil, em Janeiro de 2009?
Era gestora de exportação numa empresa de Vagos. Sou licenciada em Línguas e Relações Empresariais. A minha grande dúvida agora é: voltar para a área empresarial ou não?
Como era a sua vida diária no Brasil?
Manicoré é uma cidade de 25 mil pessoas, na margem do rio Madeira, a 400 km de Manaus, com acesso por barco e avião. De Manaus a Manicoré, a viagem pode demorar três dias (barco normal) ou 13 horas (barco expresso). Manicoré tem uma zona mais rica na margem do rio, zonas ocupadas por pessoas que vêm de fora e duas urbanizações em construção. Depois, há mais vinte mil pessoas espalhadas por meia centena de comunidades nas margens do rio, em clareiras. Tínhamos trabalho na cidade e nessas comunidades. A mais distante a que eu fui ficava a oito horas de “voadeira” – um barco rápido, tipo canoa de alumínio, mas com motor. Eu só fui a 15 comunidades. Às vezes tínhamos de viajar de noite, com uma lanterna e uma lona a tapar as coisas da chuva…
As viagens tinham risco?
Sim, algum. O Madeira tem zonas de águas rápidas e tem jacarés. Uma vez fomos contra a margem. Mas nunca estivemos em perigo.
Qual foi o seu trabalho?
Eu estava com os missionários salesianos. Eles têm duas grandes áreas de actuação: a paróquia e o centro juvenil, que é um centro de formação profissional. Os jovens só têm aulas de manhã ou de tarde e passam a outra parte do tempo no centro juvenil, onde aprendem carpintaria, serralharia, pintura, serigrafia. Evita-se assim problemas como a droga e a prostituição, que são muito frequentes. Neste centro, implementei um sistema de qualidade. Os instrutores sabem da sua arte, mas não têm formação académica. Dei formação aos instrutores, fui uma espécie de fiscal da qualidade. O centro é auto-sustentável, isto é, vive dos trabalhos que faz e vende. Ora, para isso, é preciso que tudo seja feito com qualidade e atenção ao cliente. À noite, às segundas, quartas e sextas, tínhamos o oratório juvenil.
Um oratório salesiano não é, ao contrário do que o nome dá a entender, um espaço de oração mas sim de convívio…
Sim. É um centro onde se brinca, joga, convive. Mas também há sempre uma pausa de oração e reflexão, que tanto pode ser de 30 como de dois minutos, consoante o público.
Um dos seus trabalhos foi a formação de líderes juvenis…
Durante um mês, tivemos 500 jovens em competição ou “gincana” – como eles dizem. Os jovens formavam grupos de 20 elementos e competiam em provas de futebol e atletismo, mas também visitavam a prisão e participavam em palestras escolares contra a droga. O objectivo era encontrar novos líderes juvenis e aproximar os jovens da Igreja. Algumas provas eram engraçadas. Por exemplo, precisávamos de tijolos para fazer um muro em Andaraí e para a capela do Bairro Presidente Lula. Então, uma das provas consistiu em arranjar tijolos. O mesmo fizemos em relação a plantas medicinais… As equipas vencedoras ganharam viagens a Manaus, para visitar as relíquias de D. Bosco [fundador dos salesianos], que estavam na capital da Amazónia. No final, tivemos 40 a 50 novos líderes. Um grupo muito activo e coeso.
Quando cheguei à missão, o P.e Bira [missionário salesiano, director da missão, foi entrevistado por este jornal na edição de 28 de Janeiro de 2009] perguntou-me: “Onde preferes trabalhar?” Eu disse: “Centro juvenil”. E ele: “Não. Tu vais fazer de tudo”. E assim foi: trabalhei com jovens, adultos, na acção social, na constituição de comunidades…
Como era esse trabalho de formação de comunidades?
Enquanto lá estive, consolidou-se comunidade de Andaraí, que passou a chamar-se N.ª Sr.ª de Guadalupe, com cursos de formação para adultos e colónia de férias para crianças, e iniciou-se outra no Bairro Presidente Lula, ambas na cidade. Este bairro não tinha electricidade nem estradas. Começou do zero. Criámos lá um oratório. Levámos um gerador, lâmpadas, umas colunas, músicas e começamos a chamar as pessoas, à noite. Aos poucos, começaram a vir a crianças com as suas lanternas. A seguir vieram os pais. Depois, os pais começaram a trabalhar juntos. Nasce assim a comunidade.
Em Manicoré, há 30 igrejas evangélicas. É muito fácil uma pessoa passar dos católicos para os evangélicos ou o contrário. Por isso, é importante o trabalho de criar comunidade, ter novos espaços, dar opções de formação e promover a acção social. A igreja trabalha em todas as frentes.
Custou a adaptar-se à realidade brasileira?
O brasileiro da região onde estive é muito diferente. Não está de braços abertos e cantar, como às vezes o imaginamos. Acolhe bem, mas tens de ser conquistado. Quando cheguei, as pessoas não me entendiam. Perguntavam: “Em que língua é que ela está a falar?” Até que comecei a falar mais devagar e com as vogais mais abertas. Primeiro foi forçado, depois até fiquei com um bocadinho de sotaque.
Aprendeu com a Igreja brasileira?
Aprendi muito com os missionários, o P.e Pira, brasileiro, o P.e Vítor, espanhol, e o irmão António, italiano, e com as comunidades. A acção da Igreja, na missão, é mais incisiva, mais actuante, mais atenta. Trabalhei com muitas pessoas e aprendi a conjugar esforços, enfrentar situações diferentes.
A missão mudou a sua visão de Igreja?
Sem dúvida. Aqui [em Portugal], faço parte da paróquia, dou catequese, estou no grupo de jovens… Sou participante activa. Mas lá eu morava na casa paroquial. A participação na vida eclesial foi muito mais forte. Mas não só por isso. Na missão, a mensagem de Jesus é mais incisiva. Temos mais consciência de que Jesus não ficou dentro do templo. Andava pela rua, mexia com as estruturas, promovia os excluídos. Isso nota-se muito mais em Manicoré. Era visível. O enfoque estava em promover as pessoas, ajudar a crescer. A espiritualidade está muito próxima da acção social. Por exemplo, quem criou o Fórum da Cidadania, para promover a justiça, foi a igreja. O padre estava à frente, embora depois, por bom senso, se retirasse para dar lugar a um leigo. O cristianismo é mais consequente. Por isso é que há muitos missionários assassinados nas missões.
