Registos de um passado com D. António Francisco dos Santos

ADÃO SEQUEIRA

Testemunho de um antigo colega de D. António Francisco dos Santos, quando se completam dois anos de ordenação episcopal do Bispo de Aveiro (19 de Março de 2005, na Catedral de Lamego)

Outubro de 1959 – talvez dia 7 –, paragem do autocarro nas Pias, junto à ponte. Aqui começa um diálogo, seguro, forte e profundo, de uma amizade estável num respeito mútuo baseado nos valores humanos e intelectuais, seguros pela fé e em cuja mesa a lógica e razão tinham o seu lugar também.

Curtos anos, cerca de 8 (insignificantes na altura e hoje valiosos), nos separavam e separam no tempo. Foi na paragem do autocarro que o meu respeito nasceu. Do banco da frente, onde eu já viajava havia 10 minutos, vejo um jovem, pequeno de estatura, vestido de preto dos pés à cabeça. Na cabeça, uma gorra de igual cor sobressaía, sem ocultar uns olhos vivos de pequeno tamanho e longo alcance.

Atenta, ao lado, uma mulher sorridente olhava e media todos os passos e gestos num enlevo terno e maternal de riqueza única – D. Donzelina.

Aqui começa o meu diálogo com o jovem Francisco (nome herdado do pai Ernesto Francisco), que entre os amigos só passou a António com a ordenação sacerdotal em 1972, e a D. António Francisco com o Bispado em 2004.

Tantos na paragem, e é ele, decidido, sem medir o risco (como Pedro sobre a águas) que se atravessa na estrada a fazer paragem, inocentemente receoso que o mesmo não parasse, ou já convictamente decidido a não perder o lugar no veículo que, 50 minutos depois, o deixaria às portas do Seminário de Resende, para onde se encaminhava.

Porquê ele e não outro? Começam a ver-se já traços marcantes para quem, atento, vislumbra os sinais que marcarão o futuro e as suas diferenças.

Em Resende, nos estudos do Seminário, pequeno entre os pequenos, ou, sei lá, grande entre os mesmos, sobressai pela concentração nos estudos, com preocupação pelas notas finais, mas sem atritos com a vizinhança, ideias claras nas coisas simples, cedência aparente nas discussões de corredor, humildade visível face ao ordenamento existente, sem deixar de, já no tempo, estar atento às ideias e fintas mentais dos mais velhos e de olho esquivo entrar na curiosidade dos assuntos dos mais avançados ou dos professores mais complacentes na descida à fala com os alunos.

Passado prometedor

Assim cresce no saber e evolui na perspicácia, como os demais, na normalidade dos normais, sendo que, na semelhança ou igualdade, nada ou ninguém é igual a outrem.

Hoje e nesta data é fácil adivinhar o futuro de há 40 anos atrás, porque ele é visível e já é passado; mas, naquela data, só sinais e boa intuição poderiam antecipar alguns voos de ave predestinada, até porque o futuro, como tal, não é de previsão seguramente fácil, tais as curvas do destino e as voltas do fado.

Sendo eu mais velho em idade (8 anos) e no curso (1 ano apenas), percorremos juntos parte de iniciativas, evoluções e projectos que deveras marcaram vidas, épocas e pessoas:

– são marcas vivas e vivos testemunhos o trabalho desenvolvido com os jovens de Cinfães, ainda como seminaristas, nós os dois, no tempo do Sr. Pe Adão Pinto Afonso; e, se eu era mais visível e falante pela idade e feitio, o Francisco esteve sempre presente e sem ele não se realizaram quaisquer encontros dos jovens naquela Vila, porque eu sentia o seu apoio intelectual e a serenidade da sua presença, apesar de ser o mais jovem entre todos os jovens daquele tempo nesses encontros;

– e quando, como estudantes, constituímos equipas de autoformação, coincidíamos no mesmo grupo de trabalho;

– e quando analisávamos temas ou estudávamos a fundo o evoluir (fascículo a fascículo) dos documentos do Vaticano II, lá estávamos os dois no mesmo grupo, numa salutar inter-ajuda intelectual, visível, edificante e frutífera;

– e quando, em 1968, por normal sucessão, fui director do nosso jornal «Estrela Polar», foi ele um braço forte e esteio seguro nesse ano de trabalho raro, de qualidade esforçada, de satisfações compensadoras, de recompensas morais acrescidas e também de incómodos não previstos nem desejados;

– e na hora de expor ao Seminário o nosso melhor pensamento e visão futura, ele lá estava como co-redactor textual do pensamento dos teólogos dos cursos aderentes à dinâmica renovadora, num trabalho que enobrece ainda quem a ele se dedicou, apoiado nos fins nobres que buscavam;

– e quando, por vontade de Deus e dos homens, o meu projecto de vida se alterou, em 28 de Dezembro de l968, deixando o Seminário já no fim da Teologia e entrando na comunidade dos Leigos, onde a Igreja “na sua diversidade de ministério mas unidade de missão” tem um vastíssimo campo de acção, passo a acompanhar “de longe” o evoluir e crescer do jovem que não mais parou de estudar, orar e aprofundar a ciência de Deus e dos homens;

– e quando, em 1984, se decidiu fundar a Associação dos Antigos Alunos dos Seminários de Lamego, ASEL, numa versão correspondente à época, lá estava também o então Pe António como apoio duma iniciativa global de interesse e amplitude, situação que não mais abandonou até ao presente mandato;

-e quando sua Mãe, por meses largos, se manteve em recuperação numa clínica do Porto, veio ainda mais à evidência o seu afecto e dedicação filiais em deslocações diárias de 200 km de carinho, sem abandonar ou esquecer o seu múnus e dever sacerdotal na cidade e diocese de Lamego;

– e quando, em 2004, vem de novo à tona a ideia há muito latente de editar em Antologia os melhores textos do nosso jornal “Estrela Polar”, é nomeado coordenador da mesma, sem vermos desfeita a quase pontual parceria de colaboração e acção.

“O que tanto desejavam”

Foram estas marcas de serenidade e bom senso, de persistência e insistência, de estudo e oração, de sorriso e seriedade que marcaram o seu caminho sereno e seguro, a passos curtos e certos, de solidez estável: de Tendais ao Seminário, do Seminário à Pesqueira, da Pesqueira a Cinfães, de Cinfães a Paris, de Paris ao Seminário de Lamego, do Seminário à cidade e à diocese, que o levaram ao mundo na sagração episcopal. O bispo é missionário do povo de Deus, com um espírito sem fronteiras.

Por aqui se vê que, nada se podendo prever sobre o futuro, não foi mistério antever um futuro com base no seu passado, quando esse passado estava ainda a ser presente. Guardei sempre mentalmente, até hoje, só para mim, a frase de D. Jacinto, quando, logo a seguir ao 21 de Dezembro de 2004, lado a lado com e mostrando D. António, nos diz: “Aqui têm o que tanto desejavam”.

Em Aveiro

E se, além das suas qualidades morais e de vida interior, me é lícito aludir a mais algum pormenor humanístico do D. António, eu relevo a sua facilidade verbal: de expressão clara, de ideias seguras, de conteúdo qualificado e oportuno, de comunicação atraente, num verbo adequado, vivo, profundo, tranquilizador e apropriado, que são apanágio seu, dote e património intrínseco à sua cultura e intervenção.

Eu, que poderia ser o primeiro a escrever e pronunciar-me sobre o facto, a pessoa e as funções, esperei tempo demais, perdi a oportunidade de dizer o que queria e vi-me ultrapassado pelos que antes de mim o fizeram de modo tão belo e oportuno, deixando-me sem conteúdo próprio e curricular, familiar ou de intervenção, para devidamente falar sem repetir anteriores.

E não desejando eu repetir ninguém, faço minhas todas as boas análises e informações já feitas nestes dois anos em tantos jornais, ficando eu somente como dono e titular deste pobre e não menos interiormente sentido monólogo sobre o jovem, o Padre e o Bispo D. António Francisco dos Santos, que, para satisfação dos seus amigos, para bem das pessoas e interesse da igreja, depois de Bispo de Meinedo e auxiliar de Braga desde 21 de Dezembro de 2004, é hoje titular de Aveiro, Diocese que bem o merece e em cujos quatro antecessores tem elevado exemplo. De certo, os dignificará pela acção, intervenção, sabedoria e santidade, para bem dos cristãos, da Diocese e do mundo, na comunhão dos santos.