Vaticano nega ter travado investigações de abusos sexuais

Nota do P.e Federico Lombardi destaca resposta pronta dada pelas Igrejas da Europa Central nos casos de abusos sexuais sobre menores

O porta-voz do Vaticano, P.e Federico Lombardi, negou em comunicado que a Igreja Católica esteja a colocar obstáculos às investigações de abusos sexuais a menores em vários países da Europa Central. Segundo este responsável, as Conferências Episcopais da Alemanha, Áustria e Holanda, entre outras entidades eclesiais, “responderam à manifestação do problema com rapidez e determinação”.

A ministra da Justiça alemã acusara no dia 8 de Março o Vaticano de bloquear as investigações de abusos sexuais a menores. “Em muitas escolas e instituições houve uma espécie de muro de silêncio, que impediu que as informações chegassem à Justiça”, disse Sabine Leutheusser-Schnarrenberger em entrevista à rádio “Deutschlandfunk”.

Falando da “gravíssima questão dos abusos sexuais de menores” em instituições administradas pela Igreja, o P.e Lombardi diz que têm sido dadas provas de “vontade e transparência”.

Estes gestos, sublinha o director da sala de imprensa da Santa Sé, “aceleraram de alguma forma a expressão do problema, convidando as vítimas a falar quando se tratava de casos sucedidos há mais tempo”.

Para o Vaticano, “o ponto de partida correcto é o reconhecimento do que aconteceu e a preocupação com as vítimas e as consequências dos actos perpetrados contra elas”, procurando que no futuro “não se repitam estes factos gravíssimos”.

Após os casos acontecidos na Irlanda, com os quais o Papa mostrou a sua preocupação junto do respectivo episcopado, a nota do Vaticano sublinha que o direito canónico tem “procedimentos judiciais e penais” próprios para estas situações. Neste contexto, é citada a Carta “De delictis gravioribus”, de 2001, assinada pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, que o P.e Lombardi diz ter sido “um sinal decisivo para recordar ao episcopado a gravidade do problema”.

A nota divulgada no dia 9 de Março conclui com votos de se façam “todos os possíveis” para proteger melhor os jovens e crianças “na Igreja e na sociedade” e de que se verifique uma “purificação da própria Igreja”.

“As pessoas objectivas e informadas sabem que a questão é muito mais ampla. Centrar as acusações apenas na Igreja leva a distorcer a perspectiva”, indica o porta-voz do Vaticano.

Tentativas de implicar Papa no escândalo

de pedofilia falharam, diz porta-voz

P.e Federico Lombardi denunciou as tentativas de “envolver pessoalmente o Santo Padre nas questões dos abusos” e do escândalo da pedofilia na Alemanha. “Qualquer observador objectivo dá-se conta de que estes esforços fracassaram”, indica uma nota assinada pelo director da Sala de Imprensa da Santa Sé. O P.e Lombardi referia-se ao caso de abuso de rapazes do Coro de Ratisbona (Regensburgo), que durante 30 anos foi dirigido pelo irmão de Bento XVI, P.e George Ratzinger.

O comunicado da Sala de Imprensa menciona igualmente o acolhimento na arquidiocese de Munique, em Janeiro de 1980, de um sacerdote suspeito de pedofilia. De acordo com um esclarecimento emitido no dia 12 de Março pela arquidiocese alemã, Joseph Ratzinger, que foi o seu responsável máximo entre 1977 e 1982, participou na decisão de acolher o padre proveniente da diocese de Essen e de o submeter a terapia.

No entanto, em vez de confiar o sacerdote a cuidados médicos, como havia sido determinado, o então Vigário Geral, Gerhard Gruber, encarregou-o, sem restrições, de uma paróquia de Munique. Não foram registadas queixas contra o presbítero entre o início de 1980 e Agosto de 1982, mas depois deste período surgiram denúncias de abuso sexual, pelas quais o sacerdote foi condenado, em 1986, a 18 meses de pena suspensa, a uma multa e a submeter-se a psicoterapia.

A arquidiocese de Munique, que não teve conhecimento de outras denúncias sobre este sacerdote depois da decisão do tribunal, afastou o presbítero do trabalho com crianças. Gruber assume a “total responsabilidade” pela decisão, que classifica de “erro grave”, refere a nota da arquidiocese. No entender do porta-voz do Vaticano, este esclarecimento demonstra que Ratzinger “não estava em absoluto relacionado com as decisões” após as quais se verificaram os abusos.