A Fé e a Razão têm de caminhar juntas

A conferência aconteceu já no dia 10 de Maio, integrada nas Festas da Cidade, mas vale a pena retomar as suas ideias principais. O Bispo de Aveiro reflectiu sobre as duas asas da liberdade, que são a fé e a razão.

Uma ave, só com uma asa, não voa. O mesmo acontece com um avião. Precisam de um par de asas. O exemplo foi apontado por D. António Francisco na conferência que lotou a Biblioteca Municipal, promovida pela Comissão Diocesana da Cultura e pela Irmandade de Santa Joana, em parceria com a Câmara Municipal de Aveiro, e resume o sentido da comunicação: também o espírito humano precisa de duas asas, a Fé e a Razão, como afirmou João Paulo II numa encíclica de 1998.

D. António Francisco afirmou que a filosofia tem “especial responsabilidade” no serviço à verdade, mas necessita da Fé, que “em nada belisca a autonomia da razão”, se não quiser ficar “aprisionada no labirinto da técnica e da ciência”. A Razão, sem Fé, cai no “relativismo endémico do nosso tempo”. “Todas as posições são equivalentes?”, interrogou o Bispo de Aveiro, subentendendo o “não” como resposta e sublinhando de imediato que “a Igreja não pode renunciar ao magistério da verdade. É uma vocação que tem de recuperar”.

O Bispo de Aveiro lembrou o filósofo e teólogo medieval Tomás de Aquino, para afirmar que, por outro lado, a Fé exige a Razão: “Não basta crer; urge que se compreenda aquilo em que se acredita”. Trata-se de “dois caminhos de busca iluminadora”, disse. O conferencista recordou ainda o pensamento de Jacques Maritan, filósofo francês da primeira metade do séc. XX, ao afirmar que “só a razão que crê e a fé que pensa poderão fornecer bases sólidas para a nossa civilização”.

No espaço reservado ao diálogo, D. António Francisco diria que “é necessário estar na fé com inteligência”, acrescentando: “Temos de criar areópagos [praças onde os filósofos e oradores gregos discursavam] para que possamos exprimir o que pensamos”. O Bispo de Aveiro apontou o CUFC (Centro Universitário Fé e Cultura) como exemplo de “valorizar o que já existe” no âmbito do diálogo Fé/Razão.

Celebrando-se por esses dias o centenário do nascimento de Miguel Torga, D. António Francisco citou o poeta transmontano que viveu em Coimbra como exemplo da impossibilidade de esconder a questão da Fé: “Deus de quem eu sempre tenho procurado fugir e que nunca deixou de me seguir”. A Fé atravessa-se no caminho da Razão.

J.P.F.