Habituado a ser estrela à frente do pano, o mágico Luís de Matos esteve no Centro Universitário Fé e Cultura e contou com simplicidade e bom humor como é a sua vida longe dos holofotes: os seus princípios e valores, a sua história. Quem o ouviu ficou encantado com as convicções deste conimbricense que trocou a carreira académica de engenheiro agrónomo pela de “engenheiro” de ilusões, truques e magia. Porque se tratava de uma conversa, a certa altura teve de pedir que os presentes não batessem palmas. “Senão, eu penso que isto é um espectáculo”. Aqui fica uma síntese das suas palavras inspiradoras. J.P.F.
O “cromo” e o homem
Quando um actor “veste a pele” de outra pessoa, deixa a sua maneira de ser para representar outra. No meu caso, a percepção do Luís de Matos “cromo” não é incompatível com a do Luís de Matos homem. Mas não é completa. O “cromo” Luís de Matos está contido no homem Luís de Matos, mas o homem Luís de Matos não está contigo no “cromo”.
O que as pessoas vêem de mim é a ponta do icebergue. Se eu fosse o símbolo do CUFC, viam a ponta do triângulo. Mas há uma base estruturada que sustenta tudo isso [referência à empresa que fundou, a Luís de Matos Produções, que emprega doze pessoas – 6 com formação superior – e que trabalha com rigor e método para conceber os espectáculos].
O mágico é como o gladiador
A grande diferença entre a vida de mágico e as outras actividades é que, na minha profissão, um erro põe em causa todo o trabalho passado. Se o espectáculo for mau, a carreira acaba hoje. Tenho de estar constantemente numa demonstração de competências. Os mágicos são como os gladiadores da Roma Antiga, que lutavam contra as feras. O que ganhavam por derrotar o leão? Nada mais do que o direito a digladiá-lo no dia seguinte…, até que um dia o leão os derrotava. Um erro significava último espectáculo.
Alerta
A magia não se faz em play-back – o que é óptimo! Obriga-nos a um estado de alerta permanente, a um anti-acomodamento.
O meu melhor amigo era o espelho, não por narcisismo, mas porque fez de mim o meu primeiro crítico, ao permitir-me antever a apresentação.
O poder da vontade
Ser mágico é tão fácil ou tão difícil como ser médico, astronauta ou outra profissão. Não gosto das desculpas que apresentamos para a nossa incompetência, do tipo “se tivesse nascido à quinta-feira” ou “se vivesse do lado de lá da fronteira”… São desculpas para a falta de vontade e de energia. Claro que somos consequência do que está à nossa volta, mas temos influência no decurso da nossa vida. Podem considerar-me “poético”, mas todos podemos ser aquilo que queremos, desde que de facto queiramos.
Abrir portas
Temos de abrir portas onde há portas. Ou então, fazer portas onde há paredes, sejam de “pladur” ou de pedra. É possível desenhar portas onde elas não existiam antes. É possível ser muito honesto e ser o melhor no que fazemos. Mesmo que não consigamos, temos de desejar ser o melhor na nossa área. Não acredito em subsídios nem em cunhas. O que sou, para o bem e para o mal, é fruto de três coisas: esforço baseado em algum talento; muito trabalho; muita sorte.
Insistir, insistir, insistir
Desde os 13 anos que escrevi muitas cartas para a RTP. Poucas respostas obtive antes dos 17 ou 18 anos. Apresentei muitos projectos, até ver algum aprovado. Mas eu tinha a obrigação de tentar dar o meu melhor. Hoje, as pessoas contentam-se em ser “o melhor da sua aldeia”. Esquecem-se que a aldeia hoje é o mundo.
O poder da magia
A magia é das poucas actividades que nos permitem ter instantaneamente um ascendente sobre o nosso próximo. É a mais antiga das artes (mas não das profissões). Cria poder e admiração – talvez seja por isso que algumas pessoas optam por esta actividade! Nunca tive jeito para o futebol, mas encontrei na magia o “olhem para mim!”
A magia é algo que se pode fazer sozinho. E, ao contrário das outras artes, não requer do espectador nenhuma capacidade especial (para ler um poema ou ver um quadro de Picasso é preciso ter conhecimentos). A magia não escolhe idade, condição social ou capacidade de percepção. É uma arte universal. Chega a todas as pessoas. E. se o espectáculo for mesmo bom, transmite a cada pessoa a sensação de que foi feito para ela.
Ilusão da revelação
de um truque
Aos mágicos, numa conversa informal, pede-se-lhes para fazerem desaparecer esta caneta ou esta garrafa de água. Eu não o faço, de modo a proteger a arte. As coisas devem acontecer na altura certa, não num contexto ridículo. Não se diz a um escritor: “Escreva aí um romance…” [A seguir, Luís de Matos concordou em, mesmo assim, ensinar o truque de mudar a cor do lenço, de branco para vermelho. Aparentando revelá-lo, gozou com os trejeitos dos aprendizes de ilusionistas, iludindo, afinal, os próprios presentes. É que, sendo um truque de mãos, ninguém esperava que o artista se engasgasse, para a seguir retirar da boca o lenço vermelho. A pretensa revelação mais aumentou o efeito da ilusão.]
Livro preferido
O meu livro preferido é “O Principezinho” [de Antoine de Saint-Exupéry]. Colecciono edições em todas as línguas. Ontem chegou-me um “audio-book” em espanhol. É um “livro esponja”, um livro mágico, porque cada passagem faz-nos recordar as nossas mais recentes vivências. Aconselho a sua leitura de 5 em 5 ou de 10 em 10 anos.
Farsantes
Desmascaro médiuns, videntes e astrólogos. Fazem negócio com a ignorância e as dificuldades das pessoas. Recebo e respondo a cartas de gente que me pede ajuda por ter alguém na família que se submete a esses farsantes.
Graça
Aos 22 anos tive um acidente quase mortal. Perdi a minha imortalidade nessa altura. Seria doentio estar sempre a despedir-me das pessoas, mas, de facto, pode ser a última vez que nos vemos. Damos de barato tantas coisas que esquecemos, o maravilhoso que representam. Devemos dar-lhes mais valor. Devemos ser dignos da sorte que temos.
Lado espiritual
Sou católico, mas pouco praticante e crítico em relação à Igreja Católica. Coisas como o Pe Alexandre está aqui a fazer [referência ao responsável do CUFC e ao Forum::Universal, que mensalmente convida uma personalidade] são raras. Acredito em Deus, mas não procuro interlocutores. Não aceito a supremacia espiritual que algumas igrejas detêm sobre o parceiro, nem que encenem milagres para que os fiéis lá deixem dinheiro.
Gosto de entrar numa igreja, sentar-me e estar lá um bocado. Penso que é necessária uma aproximação da fé aos dias de hoje.
Perfil do mágico
Nascido em Moçambique, em 1970, Luís de Matos fixou-se com os pais em Avelar, na região de Coimbra. Filho único, aos 15 anos foi estudar para a cidade dos doutores, partilhando um apartamento com mais três rapazes – “os irmãos que eu não tive”, diz.
A “autonomia controlada” que viveu com essa idade (porque aos fim de semana regressava à “pacata vila de Avelar”) permitiu-lhe aprender o significado de “partilha”, já que “nem sequer sabia que existia essa palavra”. Era bom aluno “não por motivação, mas por comércio”. “Vendia notas boas aos meus pais, a troco de poder ir a congressos de magia”, afirma.
Após dois anos de leccionação na Escola Superior Agrária de Coimbra, decide deixar a segurança de ao fim do mês ter o cheque seguro na sua conta bancária para passar a viver da magia. Tem tido muito sucesso, reconhecendo, contudo, que a vida de mágico é como a de gladiador da Roma Antiga: o primeiro erro é também o último; é a morte do artista. “No dia em que não tiver que fazer ou em que os meus espectáculos estejam vazios, é possível que retome a carreira académica. Mas essa é uma rede que espero nunca utilizar”, revelou.
Actualmente, Luís de Matos faz um programa de magia na televisão da Galiza, em directo, nas noites de sexta-feira.
