Odres velhos!…

Vinho novo em odres velhos – todos o sabemos – não resulta. Rompem-se os odres e perde-se o vinho!

A democracia é um vinho novo, das sociedades, dos povos. Assistimos a um crescendo desta forma de organizar os países e nações. O vinho novo que corresponde melhor aos desejos e sonhos da humanidade: em princípio, todos são considerados, reconhecidos e convocados para exercer a sua cidadania.

É claro que um tecido democrático sem falhas, desde os mais elevados eleitos aos mais simples cidadãos eleitores, não se constrói em escassos anos ou décadas, porventura mesmo séculos. Por isso, o caminho se desenha com avanços e recuos, com curvas e contracurvas, com alegrias e sobressaltos…

Uma das esperanças dos nossos dias é a crescente consciência universal de que este é o caminho de futuro, mau grado os interesses sempre presentes de alguns, que, às vezes sob a capa de protectores do mundo, o que desejam é, subtilmente, controlar as ânsias dos povos. E, nesse campo, os interesses económicos são o motor silencioso de todas as iniciativas de opressão ou limitação da democracia. E esses interesses a maioria dos cidadãos não os detecta, nem sequer os Estados, muitas vezes, se furtam aos seus enredos.

Fundamental é que se apresentem ao sufrágio dos cidadãos “odres novos”, isto é, líderes capacitados, de coração lavado, de espírito forte e criativo, de resistência interior impermeável a todos os assédios e subornos, vertebrados por quadros de valores que os tornem colunas imbatíveis, luzeiros que creditem com o seu agir as políticas que propõem, servidores dos seus eleitores e não de séquitos de amigos e lacaios…

E aqui está a questão: os “odres do poder” são, mais vezes do que gostaríamos, “odres velhos” (mesmo que jovens), cheios do sarro de mil interesses instalados, vulneráveis a todas as “sereias”, sem sonhos nem projectos que não os da miopia do seu próprio bem estar ou a ânsia de se eternizarem no poder, dando forma a novas oligarquias ou monarquias…

Por isso, multiplicam-se os sobressaltos de povos e da humanidade inteira. É que não basta haver eleições, constituir parlamentos. A democracia reclama o exercício da cidadania: a informação, a formação, a decisão livre, a possibilidade de crítica, o hábito da sugestão, a força da contestação, a igualdade de oportunidades, a transparência de atitudes…, que os “odres velhos” tolhem por todos os meios ao seu alcance. Com líderes velhos, de mentalidade e de coração, não se preserva nem promove a democracia.