Estrabismo crónico

A comunicação social tem uma missão social, educativa, fabricadora de opinião e de cultura, motivadora de comportamentos…, para além de um nível primário de informação clara e isenta. Não são estanques estas diversas perspectivas. Reclama-se, por isso, dos agentes da comunicação social um lúcido gosto pela verdade, uma exemplar capacidade de decantar emoções e paixões, uma perspicaz tenacidade de provocar o leitor/ou-vinte/espectador sem o coagir a trilhar os caminhos que desejamos, mas antes a deixar-lhe veredas franqueadas, que o levem a reflectir, discernir e decidir.

Vem isto a propósito de quanto se disse sobre a última exortação apostólica de Bento XVI, na sequência da Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia. Para o leitor/ouvinte/espectador incauto ficaram apenas alguns aspectos se não caricatos, pelo menos muito redutores: o latim, o celibato, a exclusão dos “recasados” da comunhão…

Não são caricatos os aspectos em questão. Foram é tratados tão levianamente que transmitem uma imagem de Igreja, do Papa, das Instituições eclesiais, como “peças” fossilizadas, pelas quais, quando muito, poderemos manter a curiosidade de quem visita a história – a história inerte!

O latim, o canto gregoriano, são propostos como plataforma de encontro das diversidades culturais e linguísticas, como expressão da unidade das diversidades, como nota de abertura à universalidade…, de que a Igreja é mais do que exemplar em dar provas ao longo da sua história milenar. Longe de indicar saudosistas regressos ao passado, a Sacramentum Caritatis mais não faz do que abrir possibilidade de todos nos encontrarmos em algumas expressões comuns, que só favorecem a unidade.

Num tempo em que a credibilidade do anúncio não passa tanto pelas palavras como pelos exemplos, o relacionamento do celibato com a Eucaristia não se apresenta apenas como uma questão funcional. Como opção pessoal, reforça-se “a beleza e a importância duma vida sacerdotal vivida no celibato como sinal expressivo de dedicação total e exclusiva a Cristo, à Igreja e ao Reino de Deus”.

Confirmando a prática da Igreja de não admitir aos sacramentos os divorciados recasados, a Exortação Apostólica dá a razão profunda desta prática: “o seu estado e condição contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, que é significada e realizada na Eucaristia”. Sem deixar de apresentar todas as formas de manifestação de pertença à Igreja que é salutar fomentar nos casais e famílias a viverem estas situações. E insistir para que se averigúem com cuidado as possibilidades de uma eventual nulidade do casamento.

Transparência, verdade e caridade são, em meu entender, as notas das reflexões e caminhos propostos. Mas é evidente que quem quer ser estrábico nunca deixará de o ser. O que não tem o direito é de forçar os outros a que o sejam!