José Jorge Letria venceu o Prémio Municipal de Poesia Nuno Júdice. O anúncio foi feito no dia 21 de Março, Dia Mundial da Poesia, numa sessão com a presença do patrono.
“Dizem que os prémios não se agradecem. Ou se merecem ou não se merecem. Mas eu aprendi a aceitar aquilo que me é dado com sentido de justiça e recta intenção”. José Jorge Letria não esteve na sessão que decorreu na Biblioteca Municipal de Aveiro, mas agradeceu com aquelas palavras a “grande honra, responsabilidade e estímulo” que foi a atribuição do prémio. Presente numa homenagem a Miguel Torga pelo centenário do seu nascimento, em Lisboa, não pôde deslocar-se a Aveiro. Enviou uma mensagem. Agradeceu o prémio e elogiou a arte poética: “Nunca a poesia fez tanta falta ao mundo, para conduzir o ser humano a outras dimensões do moral e do espiritual”.
O júri aveirense não teve dúvidas em dar o prémio a quem se apresentava com o pseudónimo “Teresa Tela” e a obra “Sobre Retratos”. “O conjunto de poemas sobre rainhas, imperadores, poetas, pintores santos e anónimos” levou a que “abraçássemos de imediato a obra, como se tivéssemos encontrado um tesouro sob bênção divina”, disse Rosa Maria Oliveira, membro do júri, representando o Grupo Poético de Aveiro.
Nascido em Cascais, em 1951, José Jorge Letria tem quase duas centenas de títulos publicados, sendo metade de literatura infanto-juvenil. Em número, é o escritor português da actualidade mais premiado.
Nuno Júdice e “Cartografia de Emoções”
“Dizê-lo é lugar comum; não o dizer é cometer uma injustiça: José Júdice é um dos maiores poetas portugueses”, afirmou Luís Serrano, professor da Universidade de Aveiro, ao apresentar o autor que inspirou o prémio. José Júdice brindou o público, que lotou o auditório da Biblioteca Municipal, com uma dissertação sobre o poema, essa “cartografia de emoções”. “Escrever poesia é uma forma de nos libertarmos do que pertence ao lado contingente da existência. (…) O poema é sempre uma soma, um resultado de parcelas de leituras, influências, pessoas (…) É um espaço de travessia, um corredor. O poeta em tudo isto é o menos. O poema singular é plural absoluto”. Esta desconsideração do poeta enquanto tal em favor do poema seria esclarecida no momento de diálogo com o público: “Não me considero proprietário do que escrevo. O poema tem uma existência própria, que vai ao encontro do leitor”, disse. “Tem um lado de espelho. Pode ser opaco e não vemos nada. Mas também pode ajudar-nos a compreender o que vai no interior de cada um. O poema obriga a olhar para dentro de nós próprios”. Por isso, admitiu uma pluralidade de interpretações e compreendeu a interpelação do jovem estudante que se queixou de tirar notas mais fracas quando nos testes de literatura tem de interpretar poemas.
Já a terminar, e depois de um membro do auditório ter lido por sua iniciativa um poema de Sophia, Nuno Júdice confessou sentir-se “um clássico”, ao saber que há quem estude os seus poemas na universidade. Por isso, a ressalva: “Procuro uma certa distância entre mim, pessoa, e esse nome que aparece nos livros e está ligado à poesia”.
J.P.F.
