Páscoa libertadora

As coisas mudam. Para muitos, que mudem as coisas da “religião” é, no mínimo, escandaloso. Seja em que aspecto for e qualquer que seja a profundidade dessa mudança. Como se o mundo tivesse parado e a vertente religiosa da expressão social humana não crescesse com a própria pessoa e com a humanidade, como se fora uma face fossilizada.

Ainda antes da reforma litúrgica promovida pelo Vaticano II, a renovação do Tríduo Pascal foi uma consequência lógica do Movimento litúrgico. Em boa hora se tornou explícita na Igreja a consciência da importância da Vigília Pascal, do silêncio expectante do sábado santo (iniciado no fim da tarde de sexta) e da prévia entrega sacramental do Senhor Jesus na Ceia da despedida, a introduzir todo o conjunto do Mistério Pascal.

É evidente que a introdução do vernáculo na liturgia, mas sobretudo a redescoberta do carácter de testemunho supremo da entrega de Cristo, levaram-nos a perceber melhor a esperança que transportam todos os ritos deste tempo santo. Esperança que contagia o tempo preparatório da Quaresma, despindo-o de quaisquer sinais de luto.

Discípulos dos “Servo sofredor”, aprendemos que o ciclo da vida passa pelo regresso ao pó desta nossa condição mortal. Não como a palavra última sobre a nossa existência. Mas como a passagem, na humanidade de Cristo, pelo túmulo, a caminho da vida em plenitude.

Contemplar Aquele a quem trespassámos não é viver a desilusão de uma derrota. É aprender, nesse sinal perturbador, que o Amor de Deus nos recria na entrega total do Seu Filho: as trevas que se abatem sobre o mundo, no instante supremo da entrega ao Pai são rasgadas pelo raio luminoso da vitória da Vida dada sobre a vida “preservada”.

Reveste-se, por isso, a Páscoa de sonhos floridos, de horizontes infinitos, de cantos harmoniosos, de sorrisos de alegria, de rostos de gente salva, de corações aquecidos… A companhia do Mestre, nos seus silêncios como nas suas respostas sóbrias, nas suas decisões corajosas como nos momentos de perplexidade e de angústia, semeiam um crescente rasto de entusiasmo, até à certeza de que Ele está vivo e dá a vida, de que Ele está connosco e caminha ao nosso lado, explicando ao nosso íntimo o plano do Pai.

Até à convicção plena de anunciarmos que Aquele que foi sacrificado Deus O ressuscitou. E, por isso, o que celebramos se torna vida, no serviço dedicado e incondicional dos irmãos, como testemunho do que acreditamos! E as dolorosas paixões de quantos participam mais visivelmente da Cruz do Senhor encontrarão na Caridade, que não acaba nunca, as sementes da Páscoa libertadora!