“A morte não estava indicada para si, mas o Padre é que vai ser a vítima”

Pe Júlio Lemos recorda sequestro em Pinheiro da Cruz O testemunho do Padre Júlio, que em Novembro de 2006 sofreu um sequestro no Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, impressionou os voluntários que estiveram reunidos em Fátima.

Os jornais deram a notícia, fizeram durante três dias reportagens em directo, no local ou à distância. Era escândalo, foi sucesso jornalístico, porque o sequestro era de um padre que visitava e amava no dia a dia os presos da cadeia de Pinheiro da Cruz, levando a mensagem do amor, do Evangelho libertador.

Mas o que se passa dentro de um estabelecimento prisional é bem diferente do que a maioria da sociedade pensa, ou julga adivinhar!

Padre Júlio esteve em Fátima, nos dias 13 e 14 de Março (ver Correio do Vouga de 21-03-07), discretamente, entre os seus pares capelães e uns 60 visitadores dos mais de um milhar que estão espalhados pelas cadeias de Portugal, ao serviço de uma população de cerca de 13 mil reclusos.

Um mundo dentro de outro mundo. Uns sofrem lá dentro, outros, os familiares, cá fora.

“Conte, conte Padre Júlio!”, insistiu a assembleia. O padre Júlio, sorridente, barba cerrada, descreveu o cenário que se passou em 20 horas, com rastilho no pescoço. “Padre, este é o seu último dia, tem de ser, a morte não estava indicada para si, mas o Padre é que vai ser a vítima. A nossa maior dor é que o Padre vai morrer desta maneira; não se mexa, a bomba pode estoirar a qualquer segundo… Se você fosse um guarda, nós cortávamos-lhe já o pescoço; mas… reze, que pode ser agora…”

“Na maior tranquilidade, passou-me tudo pela cabeça. Olhem: chorei, não tanto por saber que podia morrer, mas… chorei por todos os que me sujeitavam a tudo aquilo. Eu conhecia-os. Rezei e até cantei! O que me valeu foi a fé, que julgava ainda ter. O que se dizia cá fora, com todo aquele aparato bélico, que não sabia, mas adivinhava, não me incomodava. Cá fora era um mundo, lá dentro era um outro, entre a vida e a morte, não apenas a minha mas a de muitas pessoas! Todo o sistema prisional me atormentava e interrogava”, relatou Júlio Lemos.

“«Padre, Nossa Senhora vai protegê-lo (e põe-lhe na mão um terço); reze, por nós! Recorde-se da sua Mãe. Reze, não nos deixe entrar no inferno; a pena não é para si. Reze, reze…», diziam-me os reclusos. «Eu perdoo-vos; não ides para o inferno; perdoai também a outros!..», respondia-lhes”.

E o Padre Júlio, depois de contar que tudo estava previsto, nada ter faltado, confessou ter sentido algo misterioso, “a força da oração que andava cá por fora”. “A oração é que veio do exterior, é que evitou a tragédia naquela cadeia. Que mais querem?!”, pergunta o sacerdote à assistência, gente das mesmas safras do Padre Júlio.

“A mensagem da esperança num Deus que nos ama, mesmo naqueles que nos podem tirar a vida, é de cantar, é de louvar, mesmo chorando! Olhem, amigos – testemunhou o jovem sacerdote –, depois daquele acontecimento, continuo a ir lá dentro, a estar com os presos nas celas. Mas também tenho sofrido muito nestes dois meses. Há gente na cadeia, não propriamente os presos, que muito me respeitam, que olham a cadeia com outros olhos que não propriamente os do Evangelho libertador”.

“O resto fica para depois, talvez um dia possa escrever um livro, aquele livro que me pedis. Ele já está escrito, basta surgir a oportunidade da publicação da mensagem cristã nas cadeias”, afirmou.

O testemunho do Padre Júlio, só por si, valeria o Encontro Nacional dos dias 13 e 14 de Março.