O velho sepulcro de Jesus e o novo “Evangelho Segundo Judas”

Começa a tonar-se hábito. Pela Quaresma, surgem novidades sobre Jesus Cristo, de grande potencial económico. No ano passado, foi o evangelho de Judas, o papiro com 1700 anos, promovido pela National Geographic. Este ano, são duas: o suposto túmulo de Jesus, promovido pelo realizador de “Titanic”, e o novo “Evangelho Segundo Judas”, do escritor inglês Jeffrey Archer. Há alguma coisa que se aproveite nestas incursões sobre a figura de Jesus?

O túmulo

“The lost tomb of Jesus” (“O sepulcro perdido de Jesus”), documentário (e livro) realizado por Simcha Jacobovici (canadiano de origem judaica) e produzido por James Cameron, o realizador de “Titanic”, foi exibido no Discovery Channel, no final de Fevereiro e início de Março, como revelando “a descoberta arqueológica do milénio”. O documentário defendia, nem mais nem menos, que tinha sido encontrado o verdadeiro sepulcro de Jesus (filho de José), onde estariam também restos mortais de Maria Madalena, de um filho de ambos (Judá) e da restante família, afirmando que, se Jesus foi sepultado e estão lá os seus ossos, a ressurreição não seria mais do que uma invenção dos discípulos. Logo, e é fácil concluir, como S. Paulo já o fez, é vã a fé cristã.

Há aqui claramente duas questões interessantes: uma arqueológica, outra teológica. A arqueológica pode formular-se deste modo: há alguma credibilidade neste suposto túmulo de Jesus (e seus familiares), com ossos e tudo? A teológica: encontrar os ossos de Jesus põe em causa a ressurreição?

A ambas responde-se: Não.

Factos e especulações

Há, na verdade, um dado de facto que serviu de ponto de partida para o documentário. Na região de Talpiot, Jerusalém, nos inícios da década de 1980, foram encontrados dez ossários do I século da era cristã. O historiador israelita Rahmani descreve-os em “Um catálogo de ossários judaicos” e afirma que cinco deles tinham nomes como Jesus, Maria, Mateus, José. Trata-se de nomes muito comuns. Nos cerca de mil ossários conhecidos dessa época, em Jerusalém, 25% dos nomes femininos são “Maria” (ou variantes), o nome masculino mais comum é “José”, o de Jesus aparece oito dezenas de vezes e há vários “Jesus, filho de José”. Daí que nenhum historiador credenciado (e convém sublinhar que quem mais disseca esta área são os investigadores israelitas – e não os católicos) tivesse afirmado que encontrou o “verdadeiro túmulo de Jesus”, coisa que, decerto, lhe traria grandes proveitos.

Mas quem vive do espectáculo tem outros interesses, como reconhece o teólogo e bispo Bruno Forte: “Porquê, então tanto barulho? Porque Hollywood quis lançá-lo. Dado o êxito de operações como ‘O Código da Vinci’, tentou-se provocar êxito análogo, tratando da autêntica questão que entra em jogo, ou seja, se Jesus verdadeiramente ressuscitou”.

Jesus burguês?

Já depois da exibição, um dos cientistas que deram a cara no documentário veio dizer que “não há razão nenhuma para ligar este ossário a Maria Madalena ou a qualquer outra pessoa na tradição bíblica, extrabíblica ou eclesial” (Público, 19-03-07). Stephen Pfann afirma que o documentário compromete-se com “disparates”, ao interpretar a inscrição tumular como “Maria, a mestra”(uma referência a Maria Madalena), quando lá está “Maria e Marta”, tendo este “e Marta” sido acrescentado por outra mão, noutro estilo, em época posterior.

Xavier Picaza, teólogo espanhol, comentou no seu blogue, com ironia, que, a ser verdade esta hipótese, “Jesus teria feito parte de uma família burguesa, enterrado num túmulo nobre, também burguês”.

Sepulcro vazio

Questão bem diferente e já há muito debatida nas escolas teológicas é: Encontrar (hipoteticamente) os ossos de Jesus põe em causa a ressurreição? Ou, noutra formulação: O túmulo vazio de que fala o Novo Testamento é prova da ressurreição?

Vejamos o que diz outro teólogo espanhol, José-Ramón Busto:

“Jesus não veviveu, mas ressuscitou (…). O túmulo vazio é desnecessário e insuficiente para a ressurreição de Jesus. ‘Desnecessário’ quer dizer que Jesus pode ressuscitar sem que o corpo nada tenha a ver com a ressurreição. O corpo, enquanto é um conjunto de átomos de hidrogénio, de carbono, de oxigénio, etc., é desnecessário para a ressurreição. Na vida de Deus não há oxigénio nem carbono. O físico do corpo não tem necessariamente a ver com a ressurreição de Jesus. O que não quer dizer que não seja necessária na ressurreição de Jesus, como também na nossa, a incorporação na vida de Deus da nossa dimensão corporal. Mas então, como diz Paulo, o nosso corpo será um corpo espiritual (e Cor 15,44). O facto histórico do túmulo vazio não só é desnecessário mas também é, além disso, insuficiente, como os próprios evangelhos dão a entender” (“Iniciação à Cristologia”, Gráfica de Coimbra).

“Por que é que os meios de comunicação têm tanto interesse em ter Jesus como seu alvo? Evidentemente, porque Jesus, no fundo da cultura do Ocidente e não só do Ocidente, constitui um ponto de referência decisivo e importante que tudo o que o afecta nos afecta.”

Bruno Forte (Agência Zenit)

“Creio que Jesus é o Filho de Deus que ressuscitou dos mortos. (…) O cristianismo não é culto de sepulcros nem de relíquias materiais de mortos. Se encontrássemos um dia os restos do seu corpo (alguns ossos), isso não iria de modo algum contra a fé cristã. [A ressurreição] transborda os limites do tempo e da corporalidade antiga. O novo tempo e espaço da pessoa constituem a novidade principal da Páscoa cristã.”

Xavier Pikaza (http://blogs. periodistadigital.com/xpikaza.php/

O filho de Judas quer saber o que aconteceu ao seu pai

Carácter bem diverso nos seus objectivos tem este “Evangelho Segundo Judas” (ed. Europa-América), escrito por Jerffrey Archer, autor inglês de best-sellers e também político conservador, que chegou a estar preso por perjúrio e obstrução à justiça.

Archer “veste a pele” de Benjamin Iscariotes, um suposto filho de Judas, e escreve um evangelho, com capítulos e versículos como os evangelhos canónicos, “para que todos possam conhecer a verdade sobre Judas Iscariotes, e o papel que ele teve na vida e na trágica morte de Jesus de Nazaré” (cap. 1, vers. 1). A obra apenas contradiz o evangelho de S. Mateus e os Actos dos Apóstolos no que diz respeito à figura de Judas, suas intenções e sua morte. Sem revelar o enredo, muito menos a forma de morte, diga-se somente que, depois da traição, Judas torna-se membro da comunidade de Qumran, a “seita” que vivia no deserto, longe do judaísmo oficial, à espera do Messias.

Este “Evangelho” foi escrito com a ajuda de Francis J. Moloney, padre salesiano, por indicação do cardeal emérito de Milão, Carlo Maria Martini. Archer – diz-se na entrada da obra – preocupou-se em escrever uma história para o público do séc. XXI, e Moloney assegurou que o texto pudesse parecer crível a um leitor, cristão ou judeu, do século I.

Estamos, como é fácil de supor, perante uma obra de ficção, embora com verosimilhança histórica. O glossário final é útil para conhecer melhor o ambiente dos evangelhos canónicos. Há, é certo, uma reabilitação da figura de Judas, mas tal não é feito à custa do essencial do cristianismo. Lê-se o livro e concorda-se com o que o padre salesiano afirmou: “É um modo de aproximar as pessoas da Bíblia”.