Filipe Duarte Santos em Aveiro Conferência deu a conhecer as consequências catastróficas das alterações climáticas.
O aquecimento global é um dado praticamente adquirido pela actual comunidade científica e também pela sociedade em geral, como sublinhou Filipe Duarte Santos, professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e especialista em questões ambientais e climáticas, na palestra que proferiu no Centro de Congressos de Aveiro, no âmbito das conferências “Horizontes da Física 2”, promovido pela Associação de Física da Universidade de Aveiro (fisUA).
As alterações climáticas resultam, no dizer desse cientista, da conjugação de efeitos naturais potenciados pelos efeitos antropogénicos (da acção humana), já que o aumento da temperatura começou a sentir-se a partir do início da “revolução industrial” (por volta do ano 1800), mas com um acentuado aumento no século XX, com um agravamento da ordem de 0,4 a 0,5 graus por década, a partir de 1970.
Filipe Duarte Santos revelou que, em dois séculos, a concentração de partículas de CO2 (dióxido de carbono) na atmosfera passou de 280 para 380 partes por milhão, como resultado do crescente consu-mo energético com base em combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural). Em simultâneo, houve um “aumento impressionante da população mundial”, principalmente a partir do ano 1900, referiu aquele investigador. Durante o último século, o nível médio das águas do mar subiu entre 15 a 20 centímetros.
Como resultado das alterações climáticas há um aumento dos eventos climáticos extremos, como tempestades, inundações, vagas de frio, vagas de calor, intensificação dos efeitos de seca, entre outros. Filipe Duarte Santos alertou que esses factos podem-se repercutir no ambiente, com o aumento do nível médio das águas do mar e consequente inundação de áreas costeiras, o degelo dos glaciares, a perda de biodiversidade e extinção de espécies, aumento da área desértica, bem como efeitos ao nível da saúde humana (nomeadamente pelo aumento de doenças propagadas por mosquitos, carraças e roedores), na economia, na agricultura e na sociedade (com o realojamento de milhares de pessoas obrigadas a sair das zonas problemáticas).
Como a maioria dos investigadores ligados a esta questão, entre os quais o professor da Universidade de Aveiro, Carlos Borrego, também Filipe Duarte Santos defende a implementação de dois tipos de medidas: de mitigação, com o objectivo de reduzir as emissões antropogénicas de gases de efeito estufa; e de adaptação aos efeitos advindos da alteração climática.
Em Janeiro, foi apresentado em Paris o relatório sobre alterações climáticas, onde se fizeram projecções sobre a evolução futura, tendo por base diferentes modelos de desenvolvimento. Em todos esses cenários futuros, são incontestáveis os efeitos das alterações climáticas, que podem ter maior ou menor impacto, tudo dependendo das medidas a adoptar pelos diferentes Estados. Para o palestrante, Portugal pode ter um papel relevante nesta matéria, porque assumirá a presidência da União Europeia, durante o próximo semestre, altura em que serão discutidas as medidas “pós Quioto”.
Em Portugal, e de acordo com os dados apresentados por Filipe Duarte Santos, a temperatura pode aumentar de 3 a 8 graus, dependendo dos cenários projectados, até ao ano 2100. Isso implicará o aumento do número de dias com temperaturas máximas acima de 35 graus para 100 a 120 (no Alentejo, a zona mais afectada) e até 40 dias no Minho. Em paralelo, o nível do mar poderá subir entre 50 e 125 centímetros.
De acordo com o relatório Stern, citado por Filipe Duarte Santos, a concretização das medidas de mitigação actualmente previstas terá um custo da ordem de um por cento do PIB mundial. Mas não fazer nada terá como consequência futura um custo situado entre 5% a 20% do PIB global.
