Colaboração dos leitores Num destes dias de festas pascais, fui confrontado com uma dura e triste realidade. Estava sentado numa «praça da alimentação» de um centro comercial, quando reparei num homem que passava várias vezes pela mesa onde eu estava.
Primeiramente, pensei que andasse à procura de alguém; mas, como o vai e vem era permanente e tão rápido, parei de tomar o meu café e, discretamente, detive-me a ver o que ele fazia.
Vi, então, que ele se sentava nas mesas que eram desocupadas pelas pessoas que acabavam de almoçar e, num abir e fechar de olhos, rapava todos os restos de comida que lá se encontravam. Comia-os, sofregamente. Notava-se, mesmo, que tinha fome e aqueles restos eram para enganar o estômago e a única refeição que tomava.
Fiquei calado, engasgado e a chorar por dentro, apesar de os olhos terem ficado humedecidos. Disse para os meus botões: «como é possível? Desperdiçamos tanta coisa e o que nos sobra serve para matar a fome a um pobre homem».
Não sabia o que fazer, pois via-se que ele tentava disfarçar as suas tentativas de comer os restos. Era um senhor vestido com um fato modesto e um jornal debaixo do braço, igual a tantos outros senhores. Ninguém diria que tinha fome… Mas tinha. Era um «pobre envergonhado».
Como disse, fiquei triste, colado à cadeira, com o dilema diante de mim: se me dirijo a ele a perguntar se tem fome, ele leva a mal e foge; se nada faço, fico com um peso de consciência.
No meio daquele drama humano, dei por mim em oração: «Jesus, estou a ver-Te neste homem. És Tu que passas diante de mim e me dizes – tenho fome e nada me dás de comer. Perdoa-me, Senhor, porque não tenho coragem de me dirigir a Ti e Te matar a fome, porque não quero matar a honra do irmão em que Te vejo. Farei tudo o que Tu quiseres, ajuda-me a ajudar este meu irmão».
Uma das formas que tenho para ajudar este irmão e todos aqueles que estão sem abrigo e com fome envergonhada é partilhando o caso com todos aqueles e aquelas que lêm esta coluna, para que todos andemos mais atentos aos mais desfavorecidos e possamos ver a Jesus. Temos de arregaçar as mangas e meter mãos à obra.
Para mim, foi verdadeiramente um encontro, uma aparição do Ressuscitado. Eu vi o Senhor, ao beber um café.
Sérgio Carvalho
