Ponta de Lança Se a economia, os governos (de topo e intermédios), olhassem com profundidade para o que se passa no universo desportivo português, rapidamente perceberiam que já nem o ditado (popular) “quem não tem cão caça com gato” tem profundidade suficiente para metodologia de gestão e administração, tão típico no nosso país na (lei) do desenrascanço nacional. É constatável que há um pequeno grupo de portugueses que ainda tem “cão” para caçar; outros têm oportunidade, tal a impunidade, de chegar aos ilegais falcões e furões; mas a maioria já só tem a própria unha, caça à mão ou, aqui e ali, consegue um perdigueiro de provecta idade apenas para levantar uma ou outra espécie que, por qualquer razão, fica para trás, distante da ninhada!
Vem isto a propósito da grande novidade destes dias em que é veiculada a constatação sobre a falta de poder de compra dos trabalhadores por conta de outrem, que registou em Portugal durante o ano passado a maior descida dos últimos 22 anos – calcula a Comissão Europeia. É necessário recuar ao ano de 1984 para encontrar uma evolução mais negativa do poder de compra dos portugueses. Nessa altura, com a inflação acima dos 25 por cento, os salários reais caíram a uma taxa de 5,6 por cento. Nem na crise de 1993, nem em 2003, o último ano de recessão, as remunerações dos trabalhadores foram tão penalizadas.
Os fluxos de dinheiro são, numa análise elementar, clássicos: abertura de oportunidades de acesso aos cofres dos mais ricos, juros acessíveis, logo, a classe média “assalta” o dinheiro e endivida-se até mais não poder; depois, os bancos centrais, FMI, Banco Mundial e outros, determinam: “É preciso voltar a encher o cofre” (para outros investimentos mais interessantes), e sobem os juros. Quem tem dinheiro corre a depositá-lo no banco; quem tem dívidas, passa a trabalhador não assalariado desses grupos económicos ou perde tudo (dinheiro, bens, direitos). Lá vai a casa, o carro, as viagens… aquilo que parecia ser um bom nível de vida!
Voltando ao desporto, o que é que se tem verificado com os clubes nos últimos anos? Má gestão, compra de gato por lebre, uns trintões, dívidas e mais dívidas… fim de linha para uns tantos!
Na vida económica, verificava-se: o privado despedia, o público apertava o cinto. Agora, claro, uns e outros são praticamente despedidos. Basta estar atento aos ventos que virão de França, depois da vitória de Sarkozy para o Palácio do Eliseu!
Hoje, o segredo para uma boa gestão de base (na carteira de cada um, nas Câmaras, nas Escolas…) não é estoirar recursos, sobretudo em perecíveis e consumíveis, como se a crise fosse só para os outros. O mais importante, é investir na qualidade dos meios de trabalho, é suscitar a inovação no que pode ser feito com os três “R”: reduzir, reciclar, reutilizar! “Quem não tem cão caça com gato”… ainda tem alguma utilidade!
Desportivamente… pelo desporto!
