Pensar a Paróquia O confessionário constitui um símbolo da preocupação da Igreja em acolher as pessoas desejosas de reconciliação e de paz ou habituadas ao cumprimento da prática penitencial. A sua configuração é diversa ao longo da história, estando muito relacionada com a compreensão da doutrina sobre o pecado e seus efeitos na vida das pessoas, na instituição eclesiástica e na comunidade eclesial.
Desde as catacumbas dos mártires, onde aparecem uns bancos escavados na rocha para o bispo se sentar e atender quem pretenda confessar-se, até ao móvel colocado no templo paroquial, o confessionário reveste várias formas em ordem a tornar visível o que se passa no seu interior: duas pessoas que se encontram, em nome de Deus, para que o perdão tome rosto humano e seja recebido como dom especial a quem o acolhe; duas pessoas devidamente identificadas, iguais em dignidade, mas diferentes nas funções; duas pessoas prontas a estabelecerem uma relação de ajuda que tem “o selo” de Deus, embora condicionada pelo “jeito” humano; duas pessoas recolhidas num espaço exíguo e silencioso, que realizam, em privado, uma acção sacramental própria de toda a Igreja; duas pessoas conscientes do alcance dos malefícios do pecado, mas peregrinas do amor que tudo cura e supera.
Missão nem sempre apreciada
O confessor nem sempre é apreciado na sua nobre missão de sinal acessível da misericórdia de Deus; de “agente” de saúde integral ao serviço de Jesus Cristo, médico divino; de mestre e guia que proporciona ao penitente a luz do Espírito Santo, a fim de interpretar rectamente a situação em que se encontra e querer saná-la; de juiz que, conjugando todos os elementos declarados pelo penitente, absolve com autoridade divina o pecado cometido e potencia a graça recebida; de ministro da Igreja samaritana que se revê no processo de reconciliação como forma de acompanhamento a quem pretende refazer ou intensificar a sua vida cristã; de interlocutor do penitente que nem sempre vê com clareza nem avalia com rectidão os actos que estão no centro das suas preocupações.
A oração da absolvição expressa de modo sublime a riqueza desta missão, mas a prática pastoral mostra à evidência quanto é preciso fazer para que o sacramento da reconciliação reapareça na sua nobre função e seja apreciado nos seus efeitos positivos. Integrado na celebração comunitária ou realizado com um só penitente, este sacramento é o mais personalizado de todos os sacramentos e constitui uma espécie de direito fundamental derivado, que a Igreja coloca à disposição dos fiéis.
Locais do confessionário
A localização do confessionário é sintomática da riqueza do significado que a prática penitencial lhe atribui. Em cada sítio escolhido está presente um sentido que vale a pena considerar. Assim, o seu lugar é escondido no tempo da perseguição; exposto no adro da igreja paroquial ou situado à entrada da parte de dentro do templo, no período da penitência pública; recolhido na sacristia, “arrumado” nas capelas laterais ou nos recantos do espaço interior, alinhado junto às paredes interiores da igreja, “disperso” no meio da multidão e apenas reconhecível por uma sinalefa, quando se acentua a confissão privada e a relação individual com Deus por meio do confessor; colocado num local “nobre” da igreja e “próximo” do altar da celebração da eucaristia, para acentuar o alcance pessoal e comunitário daquele acto que parece meramente individual.
A instituição paroquial nascida do amor que se multipla em iniciativas de evangelização e de reconciliação, acolhe, vivencia, celebra e reparte o perdão recebido nas mais diversas circunstâncias. Faz-se ela mesma veículo e rosto da graça de Deus, que, à maneira de seiva, está presente e revitaliza a comunidade familiar e a convivência social.
Configurada pelo negativo da limitação humana, tudo nela e por ela está sujeito à desarmonia, ao conflito injusto, à desgraça, ao pecado. Mas também tudo é passível de receber e de dar o perdão, de promover a reconciliação, de gerar novamente a comunhão: Oração, leitura da Palavra, prática da caridade e comunicação de bens, celebrações sacramentais, sobretudo a da eucaristia e a da penitência. Merece destaque especial o estilo de vida que, no seu silêncio eloquente, fala mais alto e de forma mais eficaz que muitos discursos e mensagens.
Símbolo da reconciliação
O confessionário tem a sua razão de ser enquanto símbolo de um vasto processo de reconciliação. Do ser humano consigo mesmo, pois todos estamos “feridos” pela nossa finitude exposta a desvios e desmandos. Das pessoas entre si que, do berço à sepultura, vivem emoções negativas e outras formas de não humanidade. Das classes (ou corporações) sociais que sobrepõem o interesse particular ao bem comum dos colegas, dos concidadãos, do país, das Nações. Das Igrejas que, sentindo a força do pecado da divisão, vão lentamente caminhando na aproximação e na união. Por isso, é preciso abrir-lhe as portas, descobrir o encanto e a beleza dos seus horizontes, apreciar o alcance do seu simbolismo.
Este processo global é evocado por aquele símbolo, talvez envelhecido e desprezado, objecto de chacota em formas romanceadas de comunicação, mas reconhecido e cantado por quem descobre o seu alcance, recorre a ele quando necessita e tenta dar-lhe uma configuração atraente e confortável, ainda que minimamente.
O rito da reconciliação de um penitente põe a claro a dimensão humana deste processo global: preparar o encontro, acolher as pessoas, ler para escutar a Palavra de Deus sobre a condição humana, narrar com verdade e sem falsas culpas ou desculpas o que aconteceu, reapreciar os critérios com que avalia a sua situação, aceitar a parte da responsabilidade que lhe cabe, reparando ofensas ou outras formas de desamor egoísta e assumindo propósitos de prevenção e melhoramento na sua vida face ao futuro, acolher com humildade a reconciliação alcançada e ser testemunha do perdão de Deus no mundo.
