Orgulho que afasta ou humildade que aproxima?

À Luz da Palavra – XXX Domingo Comum – Ano C A liturgia deste domingo volta a falar-nos da oração. Diz-nos que Deus tem uma predilecção pelos humildes, pobres e marginalizados e que estes, no seu despojamento, humildade e até pecado, estão mais perto da salvação, pois são os mais disponíveis para acolher o dom de Deus.

Na primeira leitura, apercebemo-nos de que Deus é um “juiz justo”, que não se deixa comprar pelas ofertas desses poderosos que praticam injustiças na comunidade; em contrapartida, esse Deus justo ama os humildes e escuta sempre a oração do pobre, do órfão e da viúva, pessoas descriminadas e injustiçadas naquele tempo, porque “o Senhor é um juiz que não faz acepção de pessoas”. A oração destas pessoas em estado de sofrimento, provocado pela injustiça opressora dos que detêm algum poder sobre elas, é feita com humildade e persistência. Por isso, não pode deixar de ser escutada pelo Senhor, que ouve a voz do pobre que clama e está perto do coração atribulado (Sl 33).

O evangelho descreve a atitude correcta que o crente deve assumir diante de Deus. Recusa a atitude dos orgulhosos e auto-suficientes, convencidos de que a salvação é o resultado natural dos seus méritos, e propõe a atitude humilde de um pecador, que se apresenta diante de Deus de mãos vazias, mas disposto a acolher o dom de Deus. É essa atitude de “pobre” que Lucas propõe aos crentes do seu tempo e de todos os tempos. De pé, no primeiro banco da “igreja”, o orgulhoso fariseu vangloriava-se diante de Deus e troçava do pobre publicano. Por sua vez, ao fundo da “igreja”, o publicano batia no peito e confessava as suas culpas. O primeiro orante cumpriu literalmente toda a lei, mas esqueceu-se de ser humilde e de praticar o amor fraterno, por isso saiu da oração com o coração mais carregado de culpas. Afinal, foi o segundo orante que saiu puro, justificado do seu pecado, após a sua humilde oração. “Todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. É este o conhecido aforismo com que Lucas termina a perícopa do seu evangelho. Quem, de entre nós, não experimentou já situações de profunda humilhação, provocada por mil e uma circunstâncias, vinda de nós próprios ou de outros, que se arvoram em juízes injustos e implacáveis, por se considerarem acima de nós? Quem, de entre nós, não experimentou já, também, situações de exaltação, que nos levaram a espezinhar e a excluir irmãos nossos, considerando nós que emitimos um juízo justo sobre eles? Estas são as situações da nossa existência. São, também, as atitudes humanas que a palavra deste domingo contesta, porque nos afastam de Deus, único juiz que não faz acepção de pessoas.

Na segunda leitura, temos um convite a viver o caminho cristão com entusiasmo, entrega e ânimo, a exemplo de Paulo. Na sua carta, Paulo queixa-se do abandono a que foi votado, aquando da sua prisão, momento em que se sentiu profundamente humilhado. Porém, Paulo tem a certeza que combateu o bom combate, que permaneceu na fé e, por isso, “o Senhor, justo juiz” lhe dará a coroa da justiça. O Senhor o livrará de todo o mal e lhe dará a salvação no seu reino celeste, apesar de todos o abandonaram, quando ele mais precisava de ajuda.

XXX Domingo Comum: Sir 35,15-17.20-22; Sl 34 (33); 2 Tm 4,6-8.16-18; Lc 18,9-14

Deolinda Serralheiro